Opinião

Por Ricardo Froes, em 20/05/2013 às 12:31  / 5 opiniões.

Para aqueles daqui que “recusam o mundo em favor de seu mundinho ideológico”. E como os há!

Tamanho da fonte: a-a+

Luiz Felipe Pondé: O método da raposa

Para que servem os cientistas políticos? Para muita coisa talvez, mas não para prever fatos que deveriam ser da sua alçada, nos diz o artigo “Sobre Raposas e Porcos-Espinhos”, de Nate Silver, na “Ilustríssima” de 12/5/2013. Neste terreno, pessoas menos obcecadas com sua própria “verdade” teriam mais sucesso.

O autor cita a derrocada da União Soviética como exemplo de fracasso dessa classe. Nenhum “especialista” foi capaz de prever o fim do “socialismo real”. O texto aponta o risco de irrelevância da ciência política, pelo menos quando pautada por concepções de como o mundo deveria ser, ou, dito de outra forma, quando pautada por ideologias, praga comum no mundo acadêmico.

Não se trata de dizer que cientistas políticos não servem para nada, mas de perceber, entre outras coisas, o problema que se esconde por detrás de tal fracasso. Logo voltarei a este problema.

O estranho termo que dá título ao artigo citado vem do ensaio de Isaiah Berlin “O Porco-Espinho e a Raposa”, da coletânea “Pensadores Russos”, entre nós publicado pela Cia. das Letras em 1988. O ensaio não visa a falar da irrelevância dos cientistas políticos, mas sim dos diferentes modos como se constituem o pensamento e a vida de um grande autor. Ele mesmo, Berlin, podendo ser elencado entre as raposas.

Shakespeare, Montaigne e Aristóteles seriam raposas (eu acrescentaria o grande crítico Carpeaux a este grupo), Freud, Hegel e Marx, porcos-espinhos; portanto, para Berlin, não se trata de reduzir estes à nulidade.

Para o ensaísta britânico (judeu do Leste Europeu), raposas são flexíveis, não precisam de coerência ou unidade interna entre os elementos e teorias manipuladas pelo pensamento (ou vividas no dia a dia) porque não operam a partir de uma visão de mundo que supõe “um centro de sentido” do mundo.

O “sentido da realidade”, título de um dos seus maiores ensaios, é a pluralidade desta, sem nenhuma unidade última descritível por uma teoria da realidade ou da história. Eu posso, por exemplo, concordar com a teoria da mercadoria de Adorno e ao mesmo tempo achar que ela não esgota o entendimento do mundo. O “método” da raposa é não ter método.

O porco-espinho trabalha com a ideia de que ele descobriu o conjunto de teorias que explica o mundo (a “unidade do mundo” foi descoberta por ele), como o inconsciente de Freud, a dialética de Hegel ou o capital de Marx.

Mas, voltando ao problema que leva ao fracasso do modo de agir do porco-espinho (este, segundo Nate Silver, é menos eficaz na análise do mundo, e eu concordo com Silver aqui), é que, como diz Berlin, “os professores simplesmente tendem a exagerar a importância de suas atividades pessoais, como se fossem a força central que impele o mundo”.

Portanto, não se trata de negar o valor de porcos-espinhos (como negar o inconsciente, a dialética ou o capital como formas válidas de pensar o mundo?), mas, sim, de revelar o risco quando professores se fazem oráculos da verdade do mundo a partir de sua sala de aula, negando tudo mais que contradiga suas teorias de mundo. O que Silver aponta é este vício na mídia e como ele fica ridículo quando especialistas recusam o mundo em favor de “seu mundinho ideológico”.

Outro livro essencial para pensarmos as causas da irrelevância das ciências humanas na lida com o mundo “que desencoraja especulações” (Gertrude Himmelfarb, historiadora americana) é “Envolvimento e Alienação” (ed. Bertrand Brasil, 1998), do sociólogo Nobert Elias.

Neste livro, Elias opõe o envolvimento à alienação como modo de ação dos cientistas sociais e defende a alienação como sendo o mais eficaz, e dá uma razão para as ciências sociais não serem capazes de evitar um único massacre étnico.

Claro, alienação, aqui, não é alienação marxista, mas o distanciamento que o cientista social deveria ter de suas preferências teóricas e “afetivas” quando investiga a realidade a sua volta. O envolvimento, seu contrário, infelizmente, é a atitude mais comum em minha casta intelectual: tornar-se oráculo de um “mundinho”, aquele que eu tenho na minha cabeça.

Tem algo a dizer?

    5 opiniões publicadas

    O que você tem a dizer?

    Por milton valdameri, em 20/05/2013 às 12:20

    Vou concentrar meu comentário neste parêntesis: (como negar o inconsciente, a dialética ou o capital como formas válidas de pensar o mundo?). Em primeiro lugar o inconsciente, cuja existência não pode ser negada, mas em hipótese alguma pode ser considerado uma forma de pensar o mundo, pois inconsciente não pensa nem é agente de coisa alguma. Em segundo lugar O Capital, que não apenas é possível negar como forma válida de pensar o mundo, mas também é dever de todo e qualquer estudioso fazê-lo. Aqueles que não negam O Capital não o estudaram adequadamente. Um de meus livros refuta categoricamente O Capital, que nada mais é que um aglomerado de delírios. Em terceiro lugar a dialética, que não é e nunca foi uma forma válida de pensar o mundo, pois não é uma forma de pensar, dialética é apenas a comparação entre duas teses (tese e antítese), onde uma supera a outra ou ambas resultam em uma terceira tese, a síntese. Além do mais não existe uma dialética de Hegel, existe apenas a dialética, que é a mesma para Hegel ou para qualquer outro indivíduo.

    Responder

    Por José Antônio da Conceição, em 20/05/2013 às 12:31

    @miltonv Bateu forte no Pondé! Apenas sobre o "inconsciente" tenho algo a contrapor ao seu comentário: O inconsciente, que alguns estudiosos dizem ser ações eletroquímicas ocorridas no cerebelo, age independente da vontade. Pode ser ouvido ou não pelo seu proprietário, mas emite mensagens constantemente. O inconsciente já foi denominado como "sexto sentido", uma espécie de premonição que as mulheres ouvem e acertam, devido estarem mais treinadas que nós, homens, na escuta e na tradução das tais "mensagens". É matéria ainda em estudos, são poucas as teses e muitas as hipóteses.

    Responder

    Por erikssom patos , em 20/05/2013 às 10:49

    Acho o Pondé extremamente irônico e sarcástico com muita habilidade na comunicação para criticar as classes esclarecidas, que de uma certa forma conduzem a administração do país. Veja como ele fala da violência e da miopia e sem-vergonhice daqueles que deveriam fazer alguma coisa de concreto: ................................................. 13/05/2013 - 03h30 O bandido e o frentista http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/05/1277563-o-bandido-e-o-frentista.shtml

    Responder

    Por Jáder Ribeiro, em 20/05/2013 às 10:35

    Pondé é um cara muito interessante! Suas idéias são claras e sua argumentação é honesta. Li aquele livrinho "Por que virei à direita". Tem uma parte escrita pelo Pondé que é excelente. Quanto ao contéudo da discussão: excelente. Nada pode ser feito ou pensando sem levar em conta a realidade. É exatamente por isso que muitas medidas são tomadas sem o efeito que dela se espera. Na cabeça do fulano é ótima..na prática...

    Responder

    Por José Antônio da Conceição, em 20/05/2013 às 10:06

    Pondé é muito bom! Excelente! Uma mente brilhante! Tanto é assim, que Pondé TAMBÉM é professor!

    Responder