Leão Serva
Pobre secretário municipal Orlando de Almeida. Ele acredita em jornais e como tal acredita no que lê nos jornais. Mesmo que seja nas declarações de rufiões e bandidos. Para ele, se a imprensa publica uma declaração de um traficante, é porque o jornal acredita no que diz o traficante. Orlando é um homem mais velho, não viu o tempo passar na janela da mídia. Não sabe que a imprensa de hoje é apenas um simulacro do que era a imprensa de sua juventude. Aliás, Orlando não leu Baudrillard, não sabe nem mesmo que o francês criou a palavra “simulacro” e ela virou moda para definir o que Marx definiria como “ideologia” e minha avó como “mentira”.
A imprensa de hoje é preguiçosa. Simplificar as histórias é seu método. Tanto para que fiquem mais compreensíveis para o leitor, como uma novela mexicana, com bons versus maus; quanto porque histórias mais simples são mais fáceis de produzir com poucos repórteres, o que atende às necessidades decorrentes da longa crise da decadência dos jornais.
Preguiçosamente, a imprensa prefere então o entrechoque entre versões à apuração de uma versão que considere mais próxima da verdade. “A polêmica”, é com isso que a imprensa gosta de saciar os mais crus dos instintos de seus leitores.
No caso do prostíbulo Bahamas, a imprensa vem tratando o seu proprietário (como se chama o dono de um puteiro? “Puto”? Ou “Madamo”?) como fonte de versões. Ele alega ser perseguido, ora pelo Prefeito Kassab, ora pelo secretário Orlando de Almeida, ora por um ora por outro… E a imprensa corre ao “outro lado”. E publica um pingue-pongue como se houvesse uma decisão arbitrária ou autocrática de uma administração municipal capaz de fechar uma casa de prostituição que por anos ficara aberta.
Daria trabalho demais aos jornalistas levantarem a história completa que, a rigor, não tem nada com a versão que transparece da “polêmica” que diverte os jornalistas e, talvez, seus leitores.
Oscar Maroni é dono de um empreendimento, um verdadeiro complexo dedicado à saliência, como se dizia antigamente. Bebidas e sexo explicitamente, drogas de forma mais discreta. Maroni alega que só explorava bebidas. A investigação do Ministério Público provou que ele explorava mulheres e portanto exercia uma atividade criminosa. Policiais civis forjaram uma investigação que concluiu que o lugar não era um puteiro. O Ministério Público ao final provou que a investigação tinha sido fraudada e definitivamente ficou comprovado que Maroni explorava prostituição e que pagava propinas para autoridades para sua proteção.
Até aí, portanto, não há qualquer questão que envolva a Prefeitura, ela não tem nenhuma influência sobre questões criminais, que dizem respeito à Polícia (Governo do Estado) e ao Ministério Público.
Mas Maroni consegui levar o caso na Justiça com recursos em cima de recursos e ficou com seu prostíbulo aberto por vários anos, sempre dizendo publicamente que tinha uma boate e que estava construindo um hotel. E que não sabia o que as pessoas que frequentavam sua casa faziam depois que saiam de lá… Como quem diz: não exploro as mulheres que frequentam o lugar, dissimulando o crime.
Dada hora, como diz a piada do mineiro, “perdeu de exibido”: deu uma entrevista à televisão dizendo com todas as letras “claro que minha casa é um prostíbulo de luxo”… E explicou detalhadamente o seu funcionamento. Então, o promotor Blat, que há anos duelava com ele entre avanços e retrocessos, sempre tentando provar o que todo mundo sabia mas Maroni dissimulava pagando policiais para fraudarem provas, teve o que faltava. A entrevista de Maroni foi uma confissão pública do crime, em rede nacional de televisão. Acabava a busca de provas de que se tratava de um puteiro.
Por absoluta coincidência, na mesma época caiu um avião junto ao aeroporto de Congonhas e um relatório de um piloto disse que um dos problemas em Congonhas é que a área de decolagem tinha sido reduzida pela construção de um prédio bem na linha de pouso e decolagem. Que prédio? O hotel de Oscar Maroni.
Então, de fato, provocado pela TV Globo, o prefeito da cidade foi ao local e disse que embargaria a obra se ela fosse causa de insegurança em Congonhas. E os órgãos públicos começaram uma investigação sobre o prédio, envolvendo os registros junto à Aeronáutica (que é quem cuida da altura das edificações na rota dos aviões: novamente, nada com Prefeitura).
O que se comprovou nessa investigação foi que Maroni tinha cometido estelionato e irregularidades irreversíveis nos processos para obtenção dos alvarás para construir o hotel. E, de novo, nada diretamente a ver com a Prefeitura.
1) A Aeronáutica tem que autorizar qualquer construção na região de Congonhas. Ela só autoriza prédios altos se forem comerciais mais altos e regula a altura deles em função de sua distância em relação à pista.
2) O zoneamento da Prefeitura diz que a maior parte da região de Congonhas é residencial, caso da quadra onde está o hotel de Maroni.
3) Para obter uma autorização de construção naquela região, uma pessoa ou entidade tem que ir à Aeronáutica e obter alvará. Com ele em mãos, vai à Prefeitura e dá entrada ao processo com o documento da aeronáutica em primeiro lugar.
Maroni quis fazer um hotel ainda nos anos 1990. Foi à Aeronáutica e pediu alvará para construí-lo. Foi recusado: a Aeronáutica só admite prédios de escritório. Mas a altura NÃO foi apontada como um problema.
Maroni retirou o processo recusado e o modificou: entrou com um pedido de autorização para construir um prédio de escritórios. Obteve alvará da Aeronáutica.
Formulou então junto à Prefeitura o processo para aprovação do projeto: deu entrada à aprovação de um prédio residencial (lembra? O zoneamento da Prefeitura só admite residências naquela quadra). E tacou no processo o protocolo de autorização da Aeronáutica (é um defeito dos processos: o pedaço do protocolo que é juntado ao processo não deixa claro para que é dada a autorização da Aeronáutica: era para um prédio de escritórios, não para um residencial).
O projeto, “autorizado” pela Aeronáutica, tramitou pela Prefeitura e obteve alvará, de novo, para construção de um residencial.
Leia as entrevistas de Maroni o tempo todo e verá que ele anunciava a construção de um hotel. Hotel, você sabe, é uma coisa, residencial é outra. E para a Aeronáutica, nenhum dos dois é autorizado na região.
Uma vez obtida a autorização para construção de um residencial, Maroni deu entrada, em 2003, a um pedido de anistia para transformação em hotel, um processo que jamais poderia ter sido autorizado, pois a quadra era residencial e o processo, se bem analisado, mostraria que tinha o vício de origem na Aeronáutica.
Quando o avião caiu e os técnicos da Aeronáutica avaliaram o processo, notaram que havia o problema original e denunciaram à Prefeitura. Um técnico da força aérea indicou inclusive o defeito: bastava pedir a íntegra do processo aprovado na Aeronáutica para ver que o caso era insanável.
A Prefeitura o fez e ao constatar que Maroni mentira sucessivas vezes (isso que se chama estelionato) em documentos públicos, recusou o seu pedido de anistia. Recusou em todas as instâncias de tramitação já há vários anos (no primeiro mandato de Kassab).
Portanto, o prédio de Maroni tem que ser derrubado.
No front da discussão sobre prostituição, ele se matou pela própria língua ao dar entrevista à TV.
E portanto, não há nada com o secretário Orlando de Almeida, como de fato o secretário diz. O problema é que o secretário achou que a imprensa quer dizer verdades, quando a imprensa é uma preguiçosa, que precisa simular jornalismo, não propriamente praticá-lo.
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2 opiniões publicadas
O que você tem a dizer?Por augusto josé sá campello, em 11/06/2012 às 14:49
Boa tarde. A imprensa, realmente tem este pecado. Passou a dedicar pouco esforço à apuração.== E pariu o tal "jornalismo investigativo". Uma forma de se desculpar pela maioria das matérias não ou mal apuradas. Também se deve levar em conta as dificuldades de caixa da imprensa. O que leva os jornais a dispensar bons e experientes jornalistas e colocar em seu lugar profissionais sem memória. Ora, até eu, daqui de Copacabana/RJ me lembrei do tal hotel antes de ler a parte final do texto. Ajscampello
Por roberto argento filho argento, em 01/06/2012 às 11:46
Caraca!, com pequena supressão, a do caso em pauta, seu artigo define, exatamente a Imprensa que se pratica em Pindorama e, quiçá, no mundo.