Brasil

Por Gustavo Adolpho Junqueira Amarante, em 16/06/2012 às 18:53  / 12 opiniões.

O país da carteirada

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Porque ainda somos um país subdesenvolvido? Essa pergunta vive rondando cabeças cultas e simples, de professores, líderes, e de gente comum, sem entretanto produzir respostas que atendam à uma necessidade imperiosa de mudança. Os últimos anos, desde a estabilização da economia, ofereceram à nação uma oportunidade ímpar para que se promovesse uma alteração de hábitos arcaicos na relação entre as pessoas, como ponte, necessária e fundamental, para a alteração de hábitos políticos e das relações entre o poder constituído, representativo, e sua contrapartida, o povo representado. Tudo em vão. Modos antigos são entranhados e difíceis de serem expostos, reconhecidos e alterados. Nós não mudamos e por isso o país não mudou, embora já se note expressiva quantidade de gentes explicitando desejo real por mudanças. São jovens educados, de origens diversas, e muito provavelmente, também seus pais e professores e líderes, saindo às ruas para pedir, com veemência e atraso, os benefícios e as responsabilidades da igualdade e legalidade.

E o que quero dizer quando digo que não mudamos? Traduzo o que vejo na vida cotidiana, onde uma parcela da população julga-se acima das regras e dos demais. Encontram sempre caminhos tortuosos para conseguir os seus intentos, através, quase sempre, de relacionamentos e da força dos apadrinhamentos. São os que vociferam, calma ou irrascívelmente, o “você sabe com quem está falando?” ou o “eu sou amigo ou parente de fulano de tal”. E assim vão furando as filas da vida, desrespeitando tudo e todos no seu caminho. Nos bancos, nos hospitais, nas lojas, nos hotéis e restaurantes, do mesmo modo que nos partidos políticos, nas câmaras de vereadores, de deputados ou no senado, nos tribunais e nos gabinetes do poder executivo, a carteirada ainda impera, fomentando privilégios que deveriam não mais existir.

A carteirada moderna usa roupagens modernas e se dilui no que se chama “networking” ou algum outro anglicismo. Nessas relações, supostamente lícitas, de troca de favores, há sempre alguém a quem se possa recorrer para auferir vantagens indevidas, para galgar posições sem mérito, para se benecifiar de influência ilícita, isto é, para abreviar caminhos e aparar arestas, que os demais vão percorrer e contornar, de modo conforme com os preceitos da lei vigente. Esta nova elite, e parte da velha também, não se envergonha do que faz, pois julga tomar para si o que lhe pertence: as melhores oportunidades, as melhores posições, a primazia pelo atendimento. Ainda somos o país da carteirada; ainda vivemos alheios às normas que sustentam o que chamamos de civilização.

É preciso educar-se e educar para mudar o mundo: formar e informar, ensinar a pensar com crítica e a olhar-se com crítica, incutir respeito às leis e ao próximo, aprender sobre direitos e deveres, nossos e dos outros, e sobretuto ensinar a amar a diversidade, patrimônio maior da humanidade. É preciso primeiro mudar os próprios hábitos e comportamentos, para depois tentar promover a mudança na sociedade. É preciso abandonar a carteirada e seguir adiante, mesmo que no caminho tenha uma ou muitas pedras.

 

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    12 opiniões publicadas

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    Por Seu Creysson, em 05/09/2012 às 13:26

    Aqui entramos em um problema cultural tipicamente brasileiro, que já postei em outras discussões e repito aqui: O PROBLEMA DA FORMAÇÃO PESSOAL Vejo-me obrigado a concordar com os protestantes quando acusam a nós, latinos, de sermos indisciplinados, por confiarmos demais nas emoções. Emocionar-se é bom e tem situações certas, principalmente na intimidade com as pessoas mais importantes das nossas vidas. As emoções são o que temos de mais forte no nosso psiquismo, mas são muito pouco confiáveis e, se não tomarmos cuidado, nos levam a fazer terríveis besteiras. Quando passamos a nos preocupar demais com o que somos, a tendência é sermos levados a conclusões opostas: 1. Sou uma coisa muito boa e bacana que tem direito a fazer tudo o que eu quiser, incluindo aí tudo o que vai prejudicar outras pessoas => Mau-caratismo. 2. Não faço a mínima idéia do que sou, quanto mais eu insistir nesta preocupação, mais tempo vou perder sem chegar a conclusão nenhuma. Vou me preocupar com outros detalhes da minha casa, do meu trabalho, do meu estudo, da minha família. => Pessoas normais e equilibradas. Costumo dizer que a única coisa que sou é: sou humano. Quero trabalhar, formar uma família e educar uma criança. Até aí ok, é a aspiração da maioria das pessoas. O problema é que todas estas tarefas têm detalhes suficientes para nos ocuparmos com elas o dia todo, coisa que não conseguimos fazer quando nos preocupamos mais do que devemos com o que somos. Porque nosso foco de atenção é um só, e não temos como fazer 2 ou 3 coisas ao mesmo tempo: ou nos preocupamos com o que somos e ficamos perdidos e desorientados, ou nos esquecemos disto e passamos a nos concentrar nos detalhes de tudo o que fazemos: como fazer, onde fazer, quando fazer, porque fazer, para que fazer.

    Por José Antônio da Conceição, em 17/06/2012 às 21:51

    Por que ainda somos um país subdesenvolvido? Permito-me, amigo Gustavo Adolpho, ampliar sua pergunta: Por que ainda somos um planeta subdesenvolvido? Porque "desenvolvimento" entendido como ação ou efeito de desenvolver-se (evoluir), crescimento, aumento, progresso de entidades e seres organizados, todas estas definições dadas pelo AULETE, foi entendido pela humanidade como um caminho que aponta apenas numa direção: produzir e consumir o produzido para que seja necessário produzir mais, num ciclo virtuoso, crescente e destruidor. Lembro-me de um filme (já antigo) em que a nave Inteprise de "Jornada nas Estrelas" volta ao passado para buscar uma baleia e seu maravilhoso canto, para salvar o planeta terra no futuro. Capitão Kirk, ao descer da nave e ter de interagir com os seres humanos do passado disse para a sua (dele) equipe: "Nesta época em que estamos, eles ainda usam o dinheiro".

    Por Gustavo Adolpho Junqueira Amarante, em 18/06/2012 às 19:24

    @joseantonio400 Olá Jose Antonio. Você tem razão: serve para o Brasil e em graus variados serve para todo o mundo. Grande abraço PS tenho frequentado com mais assiduidade o seu blog/site; meu filho também.

    Por Ismael Silverio Da Silva silvério, em 17/06/2012 às 15:50

    E preciso ter coragem, a comessar pelos parlamentares. O voto secreto nas câmaras de vereadores e dos deputados não deveria existir. Ouvi de um parlamentar ; “quem tem medo do confronto que fique em casa“, e verdade, esta cheio de parlamentares que uma vês eleito fica com medo de perder a teta ,e fica a mamar por toda vida mandato após mandato, temos que mudar isto, o parlamentar e eleito para representar durante seu mandato, e posicionar as claras para a sociedade fazendo uma gestão corajosa enfrentando quem for preciso, só assim os benefícios de uma boa gestão pode nos alcançar e também a eles ao termino do mandato.

    Por roberto argento filho argento, em 17/06/2012 às 13:07

    "Porque ainda somos um país subdesenvolvido?" - no campo da Agricultura não desenvolvemos nada, dependemos da Monsanto (com Sua Tecnologia das Sementes Híbridas - as da colheita não se reproduzem) para tudo, das sementes aos insumos; na Pecuária a situação não é diferente; alguém cite 3, apenas 3 indústrias de porte que não seja "filial" de estrangeira (não há concorrência). Somos "Commodities": solo, subsolo e mão de obra.

    Por roberto argento filho argento, em 17/06/2012 às 17:58

    @argento: . . . não Vale citar a Vale ou a Petrobras. Ok?

    Por Gustavo Adolpho Junqueira Amarante, em 18/06/2012 às 19:28

    @argento Olá Roberto, você se esqueceu do Instituto Agronômico de Campinas, da ESALQ, da EMBRAPA, entre outras instituições nacionais que tem revolucionado o campo. Falta muito ainda; há muito o que fazer e muito para melhorar; mesmo assim posso lhe afirmar que o campo não está estagnado e não é composto por uma maioria de destruidores da natureza. Abraço.

    Por Jose Reis Barata Barata, em 17/06/2012 às 06:07

    O ruim não é ser desigual, é ser tratado como tal. Creio que esta pertinente intervenção tem um valor inestimável pois invade o mundo irreal de mitos, hipocrisias, cinismos e inverdades em que vivemos.

    Por Gustavo Adolpho Junqueira Amarante, em 17/06/2012 às 12:07

    @jose-reis-baratabarata Olá Jose Reis, obrigado por comentar. Este post foi "meio que" um desabafo. Com a idade vejo que tenho ficado cada vez mais intolerante com estes comportamentos eivados de preconceito e arrogância. Fico feliz, por outro lado, por ver que os jovens também não estão mais aceitando esta estupidez, mesmo que isto lhes custe uma ou mais pedras no caminho. Abraço

    Por Obi Ser Vando, em 16/06/2012 às 19:13

    Mario Sergio, em palestra, explica pra o “você sabe com quem está falando?” . http://www.youtube.com/watch?v=Lymb1GWQECs

    Por Gustavo Adolpho Junqueira Amarante, em 17/06/2012 às 12:03

    @feliz Olá, eu vi o video; já o conhecia e continuo achando que é sensacional. Dá a exata dimensão do que somos e do que poderíamos ser. Abraço

    Por roberto argento filho argento, em 16/06/2012 às 21:09

    @feliz: Vai que é sua ................... GOOOOOOOOOOOL ! - nada mais a ser dito.