Que Código Florestal, nada. O grande fiasco brasileiro na Rio+20 se esconde no etanol. O país que ensinou ao mundo como trocar a gasolina fóssil pelo álcool renovável engata marcha ré na utilização do combustível limpo. Um vexame ambiental.
Pode-se comprovar facilmente esse retrocesso na bioenergia. Em 2011, o consumo dos combustíveis derivados de petróleo – gasolina principalmente – cresceu 19%, enquanto o uso do etanol nos veículos despencou 29%. Não precisa dizer mais nada. Anda na contramão da história a matriz energética dos transportes no Brasil.
Aconteceu que os consumidores reagiram ao desequilíbrio de preços a favor da gasolina. Duas razões básicas explicam a mudança do mercado. Primeiro, o governo federal tem reduzido o encargo da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina, taxa que nos últimos anos recuou de 14% para 2,6%. Em consequência, acabaram praticamente equiparados os custos tributários de ambos os combustíveis. Uma política moderna de sustentabilidade, como buscada em todo o mundo, procederia ao contrário, ou seja, reduziria a carga tributária sobre o biocombustível, não sobre o derivado de petróleo.
O Brasil produziu cerca de 28 bilhões de litros de etanol nesta última safra (2010/2011). Nos EUA o volume já ultrapassou 50 bilhões de litros. Incrível. O país que inventou o Proálcool, obtido a partir da cana-de-açúcar, está tomando poeira dos gringos, que destinam 40% de sua safra de milho para a fermentação alcoólica. Mais ainda. A necessidade de manutenção de estoques confiáveis começou a exigir volumosas importações de etanol. Sabem de quem? Dos norte-americanos, claro. No ano passado, o Brasil comprou acima de 1,1 bilhão de litros de etanol dos EUA. Acredite se quiser.
Não é à toa que paira desilusão no setor sucroalcooleiro. Estimulados pela agenda da economia verde, nos transportes viabilizada definitivamente com a geração dos motores flex fuel, inéditos e fortes grupos, nacionais e multinacionais, entraram na atividade. Anunciaram planos formidáveis que, após quatro anos, micaram, roubando o fôlego do parque alcooleiro. Notícia ruim chega dos canaviais. E quem pensa que é chororô de usineiro se engana feio. Corretores garantem que 20% das usinas do Centro-Sul estão à venda. Sem comprador. As chamadas greenfields, novas plantas a serem construídas, em vários Estados, ficaram no papel. O pouco dinamismo existente advém da ampliação e modernização de fábricas já instaladas. Passos de tartaruga no etanol.
Milhares de estudiosos, ambientalistas e jornalistas se encontrarão logo mais na Rio+20. O governo brasileiro fará ginástica para justificar o inexplicável. Enquanto as nações se debruçam para encontrar soluções capazes de esverdear sua (suja) matriz energética, por aqui se desperdiça uma oportunidade de ouro, retrocedendo no uso do combustível renovável.
Gasolina barata e etanol caro acabam criando um círculo vicioso contra o meio ambiente, prejudicando a saúde pública. Segundo a Agência de Proteção Ambiental norte-americana (EPA, na sigla em inglês), o etanol derivado da cana-de-açúcar pode ajudar a reduzir até 91% o efeito estufa da Terra, quando comparado com as emissões advindas da queima de gasolina. Mas, curiosamente, o ambientalismo pouca bola dá para essa tragédia da poluição urbana. O foco de sua ferrenha atuação, conforme se verificou na questão do novo Código Florestal, mira no assunto da biodiversidade. Contra o desmatamento.
A intolerância dos ambientalistas agride os agricultores, como se do campo partisse todo o mal contra a natureza. Citadinos, eles poupam as desgraças ecológicas provocadas pela urbanização, a começar pelos escapamentos veiculares. Novos estímulos públicos ao setor automobilístico favoreceram agora as montadoras. Nenhum compromisso ambiental se firmou. Pouco importa, tristemente, aos radicais verdes.
Tal miopia do movimento ambiental, infelizmente, ajudará o governo a esconder, na Rio+20, o retrocesso na agenda do etanol. Seria interessante, aliás, como subproduto da reunião, discutir para onde caminha o ambientalismo brasileiro.A incrível capacidade fotossintética do Brasil garante enorme vantagem na produção de biocombustível, energia renovável misturada com geração de empregos. Desprezá-la significa maltratar o etanol, um filho da Pátria.
A íntegra do artigo está publicada no jornal O estado de S Paulo (12.6)
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,vexame–ambiental-,885164,0.htm
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10 opiniões publicadas
O que você tem a dizer?Por roberto argento filho argento, em 24/06/2012 às 14:09
Sabe de uma coisa, Xico?: Quando desenvolverem uma Cana Híbrida (como uma mula) resistente ao Roundup, o Brazil voltará a ser referência em Etanol de Cana; outra coisa que atrapalha um pouco é o desmonte quase total da usina, para a limpeza, entre as safras.
Por Elton Luis Gouvêa, em 24/06/2012 às 13:21
Concordo Xico, o Brasil chegar ao ponto de importar etanol dos USA, que por ter como base o milho e por isso ter custo mais elevado, é uma vergonha....................
Por augusto josé sá campello, em 12/06/2012 às 12:58
Boa tarde. Em resumo : a questão é mais energética e ideológica do que pode parecer. Ajscampello
Por augusto josé sá campello, em 12/06/2012 às 12:35
Bom dia. Vai ser difícil reverter este quadro de decadência do etanol. Ou da indústria sucroaalcoleira. E de seu derivado estratégico - a álcoolquímica. Nesta última mal foram dados nossos primeiros passos. Enfatizo : estratégica. Pois o petróleo é recurso finito.=== Para tudo pode haver explicações. O abandono do etanol pode ser a resposta para umas quantas coisas. Uma delas -continuo não gostando de teorias da conspiração, mas, vamos lá; seria, por vias tortas, muito tortas diria, o fortalecimento econômico/financeiro da Petrobrás no quadro do présal.=== Outra possível explicação seria o conhecimento de que dispõe nosso governo, e faz tempo, a respeito do nosso vasto potencial de produção de gás. Aqui entra, de novo a Petrobrás. E empreiteiras. Furar o chão e extrair gás é uma parte da coisa. A outra são os necessários gasodutos.=== Outra explicação seria a necessidade de não expandir a fronteira agrícola e, desestimulando o etanol, poder lançar mão, induzir, o uso da terra liberada para a produção agrícola de exportação. Ajscampello
Por roberto argento filho argento, em 24/06/2012 às 15:56
@ajcampello: . . . a consolidação da "vocaçãow(?!) Brazil, celeiro(quintal) do mundo".
Por milton valdameri, em 12/06/2012 às 11:38
Xico, o etanol é para paises em crise e com baixa renda percapita, como os EUA, países superdenvolvidos como o Brasil tem o pré-sal.
Por augusto josé sá campello, em 12/06/2012 às 12:55
@miltonv Olá, Milton. Pode ser um pouco mais complexo que isto. Por favor, não esqueça que há grandes reservas de gás pelo país afora. Talvez, quem sabe, esteja em curso uma guinada que irá alterar nossa matriz energética. E, do gás, também se pode chegar a derivados interessantes. Cuja tecnologia já é conhecida. Para que investir em álcoolquímica? Se o gás pode matar todos estes coelhos de uma vez só.=== Présal ainda é sonho ou mito a se realizar. E vai levar uns vinte anos para realmente se tornar algo de peso.=== O jogo está posto, amigo, na nossa cara. Se vai ser bom ou dar resultado, é outra coisa.=== Talvez venhamos a assistir a uma competição entre présal e exploração de gás. Quem sabe. O que incomoda é o domínio monopolista que talvez advenha disso.=== Outra questão envolvida, àqual vale a pena prestar atenção é que há dezenas de projetos de construção de hidroelétricas nos rios andinos fora de nossas fronteiras. Hidroelétricas que, até recentemente eram a cobiça de empreiteiras brasileiras apoiadas explicita e não explicitamente pelo nosso governo. Neste caso, também há experiência e competência nacional. Lembra? Itaipu Binacional. Compramos eletricidade que o Paraguai não tem como consumir. Ajscampello
Por roberto argento filho argento, em 12/06/2012 às 14:32
@ajcampello: . . . me fez lembrar alguns filmes "d' oVelho Oeste" onde o proprietário de um rancho "secava a água" dos outros ranccheiros
Por Juliano Martins Almeida, em 12/06/2012 às 11:38
Realmente isso é uma tremenda ingerência econômica sem mencionar o lado ambiental
Por augusto josé sá campello, em 12/06/2012 às 12:41
@juliano1971 Oi! Amigo Juliano. Por obsequio não esquecer o viés ideológico. Que tem como pressuposto, raiz, sei lá, o planejamento centralizado das atividades econômicas. O modêlo - até agora, de sucesso, está aí : China e seu "capitalismo de estado".=== A âncora organizacional neste caso, já existe : Petrobrás. Que andou se dizendo uma "empresa de energia". Ajscampello