Apenas para recapitular, ética, conforme o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa (Companhia Editora Nacional, 2a edição, 2008), é o estudo dos valores e normas que permeiam a conduta humana dentro da vida prática e também o conjunto desses valores e normas; e pragmatismo, a teoria segundo a qual se considera a utilidade prática de uma coisa como critério de valor e verdade. Diz-se do pragmático que ele valoriza o aspecto prático e objetivo das coisas; que é realista e objetivo. O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Editora Nova Fronteira, 2a edição, 1986), define ética como o estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto; e pragmatismo, como a tese que afirma que a idéia que temos de um objeto qualquer nada mais é senão a soma das idéias de todos os efeitos imagináveis atribuídos por nós a esse objeto, que possam ter um efeito prático qualquer. Esta doutrina caracteriza o pragmático como o indivíduo voltado para a ação.
Vivemos o tempo da objetividade, do realismo e da ação, sem tempo para a reflexão e para a subjetividade que nos forjaram como somos, desde os últimos vinte e cinco séculos, ou mais. Vivemos a ética do moto continuo que não olha para trás e também não olha para frente, atropelando tudo e todos no caminho. Vivemos a praticidade dos iguais: uma elite mandante e dirigente e a massa conforme; fora dela apenas os fora da lei, os proscritos, os doidos e delirantes, os ascetas e os ermitões modernos. Sustenta-se a norma sobre a falácia da mobilidade social.
A ética vigente diz que devemos produzir, consumir, e assim realizar a maior quantidade de desejos e sonhos que seja possível. A produção deve ser em massa, para baratear os custos e maximizar o lucro, e o consumo deve ser desenfreado para sustentar uma produção sempre crescente. É prático, objetivo e realista, que os salários devam ser razoáveis para que o consumo se mantenha, e do mesmo modo, a produção e os lucros. É prático se oferecer alguma educação para o melhoramento da mão de obra e para a otimização da produção. É prático se oferecer sonhos, quase inalcansáveis, o pão e o circo, a Sertralina universal. Esta sociedade de produção-consumo, olhando apenas o agora, coopta representantes do povo para legislar em sua causa, mantendo-os a seu soldo. Não há mais governos, há apenas o mercado, essência final do que estratifica a nossa sociedade e o nosso mundo.
Não há como se realizar todos os desejos. A sociedade do mercado é uma falsidade que se faz despercebida pelo mesmo movimento que a mantém. A ética da praticidade, sob o ponto de vista humano, é uma ética do mal, que visa somente o caos dos instintos primevos. Não há como viver sem reflexão e sem subjetividade: nem tudo o que é fundamental é prático e objetivo. Mais do que usar o fogo roubado dos deuses, pensa-lo, pensar seu uso, e pensar sobre a ira divina, nos tornaram senhores de nosso mundo. Se Prometeus estivesse entre nós, agora, talvez decidisse apenas pensar em roubar o fogo dos deuses e então escreveria o seu sonho nas mentes de todos nós.
Vivemos o pragmatismo das alianças espúrias e das associações desprezíveis, que são esquecidas tão logo o próximo escândalo apareça para roubar-lhes as luzes e o brilho, e assim, sucessivamente, vamos descendo aos porões da ignomínia. A vergonha não é objetiva e prática, como também não o é a firmeza de caráter. A verdade não é prática, como o demonstram as mentiras sucessivas e descaradas que são proferidas, dia após dia, pelos próceres da nação e do mundo.
Concluo que o mundo prático é ruim, para eu mesmo e, talvez para grande parte dos que preferem pensar e depois agir. Pensar nos seus iguais e também nos desiguais; pensar em ação e consequência; pensar para frente sem deixar de olhar para o passado e seus ensinamentos. Parafraseando uma jovem líder, quero deixar de pensar que não tem jeito ou que tem apenas um jeito para ser fazer as coisas. É tempo de mudança, como diria uma outra liderança moderna e ainda pouco maculada pelos vícios da contemporâneidade.
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3 opiniões publicadas
O que você tem a dizer?Por augusto josé sá campello, em 26/08/2012 às 18:50
Boa noite. Caro Gustavo, há esperança! As coisas da Ética, da Moral e do Pragmatismo podem e devem ser conciliáveis ou reconciliáveis. Tive (faleceu fazem dois anos) um bom amigo que cuidava de sua fazendola com o necessário pragmatismo das coisas da terra. Mas que não abria mão de seus livros, da intrinseca honestidade, da bondade, da poesia e da estética. Também conheço alguns empresários do mesmo jaez. Um abraço. Ajscampello P S Ouço falar em uns poucos políticos éticos e pragmáticos.
Por roberto argento filho argento, em 24/06/2012 às 17:16
Interessante, postei, conferi, estava aqui. Agora não está mais . . . vai lá sabêçe!(sic)
Por Gustavo Adolpho Junqueira Amarante, em 25/06/2012 às 15:55
@argento Olá Roberto. Obrigado por gastar seu tempo lendo meu post e comentando-o. Vejo que seu comentário se perdeu, ainda assim, gostaria muito de conhecer sua opinião. Novamente muito obrigado pelo interesse. Abraço.