Meu artigo desta terça no Estadão aborda o posicionamento que a turma da agropecuária está preparando para apresentar à Rio+20. Ao que tudo indica, mostrará que concorda em carregar a agenda ambiental no campo, assumindo o protagonismo da agricultura sustentável. Chega de levar paulada dos ambientalistas.
Quem coordena as discussões, visando à elaboração do documento oficial, é a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O texto preliminar da CNA começa afirmando que “a produção de alimentos é interdependente da conservação dos recursos naturais”. Bom começo de conversa. Firma-se, nos grupos de trabalho, a ideia de que reside na inovação tecnológica, com sua posterior difusão, a chave no processo de transformação rumo à sustentabilidade. As tecnologias vinculam-se à sua época. Antigamente, nem da agronomia se necessitava para abrir florestas e drenar pântanos, expandindo a produção rural pelo trabalho rudimentar, garantindo assim o surgimento das cidades.
Hoje em dia, os dilemas da civilização exigem soluções mais sofisticadas e, certamente, mais complexas, capazes de enfrentar um duplo desafio: o da segurança alimentar e o da crise ambiental. A humanidade já crava uma pegada ecológica acima do suporte natural do planeta, como se emitisse notas promissórias contra o futuro. Ou se regride à época medieval, reduzindo a população e o consumo, algo impensável, ou se aposta no conhecimento para avançar.
O mundo sustentável se alicerçará sobre bases tecnológicas mais evoluídas, porém, certamente, criadas sob paradigma distinto do inerente ao crescimento perdulário forjado desde a Revolução Industrial. Essa crença na ciência se ampara na história da agropecuária brasileira. A melhor lição, recente, encontra-se na técnica do plantio direto. Foi somente quando se desenvolveu tal sistema de cultivo que o fantasma da erosão deixou de apavorar o campo.
Exemplos não faltam. Nos ganhos de produtividade que reduzem a pressão sobre novos desmatamentos, na energia renovável do etanol e do biodiesel, na integração da lavoura com a pecuária, na reciclagem de embalagens de agrotóxicos se percebem facilmente as vantagens tecnológicas rumo à sustentabilidade. Nos últimos 30 anos, com o sistema Embrapa “tropicalizando” a tecnologia, a produção de grãos saltou 238%, expandindo a área cultivada em apenas 36%. Show de competência.
Sim, problemas ainda persistem, reflexos da maneira tradicional, e predatória, de produzir no campo. Mas a tendência contemporânea está delineada. O polarizado debate sobre o Código Florestal não deixou dúvidas: ou os agricultores adotam a receita moderna na produção, ou a sociedade os fará, na marra, engolir. Será inescapável pegar o touro ambiental à unha.
A participação do Estado será cobrada no documento que a CNA vai apresentar à Rio+20. Cabe ao poder público incentivar a agricultura sustentável, com maiores investimentos na pesquisa, garantindo boa rentabilidade da produção rural. Utopias animam as consciências. Mas a ecologia não pode esvaziar o bolso do agricultor. Dura realidade.
Ruralistas tacanhos resistem aos novos tempos. Sua posição faz contraponto aos ambientalistas bobocas, que apostam na regressão tecnológica. Ambos os radicais, ruralistas ou ambientalistas, fogem do problema central. Uns, sonhadores, sublimam o trabalho familiar, confundem produção orgânica com má agricultura. Outros, reacionários, se prendem ao passado sem perceber que aprisionam o futuro.
Resolvida, quando estiver, a pendenga sobre o Código Florestal, baixada a poeira, chegará o momento de as mentes abertas se entreolharem com mais respeito e consideração. Chega dessa discussão polarizada, e imbecil, que separa – ao invés de juntar – a agricultura do meio ambiente. Uma não vive sem o outro.
A Rio+20 poderia deliberar que a FAO, seu órgão para a agricultura e alimentação, organizasse melhor esse debate sobre a questão ecológica no campo. Uma aposta na conciliação, não na divergência. Os agricultores brasileiros querem sentar-se com os ambientalistas à mesma mesa. Dialogar com racionalidade, à frente de um interlocutor confiável.
Será que os ecologistas topam, contribuindo para a transformação virtuosa que ensaia o campo, em vez de apenas atirarem pedras na vidraça antiga do ruralismo? Quem, acreditando na mudança, trocará os cômodos holofotes da mídia urbanoide para amassar barro na roça? Qual deles prefere a difícil busca das soluções, verdadeiras, em lugar do discurso fácil, e falso, do holocausto ambiental?
Com a palavra os ambientalistas sensatos.
Na íntegra: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,touro–ambiental-,873097,0.htm
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2 opiniões publicadas
O que você tem a dizer?Por augusto josé sá campello, em 16/05/2012 às 14:55
Boa tarde. Minha vida foi útil e prazerosa. Descontada a parte de ter sido funcionário público federal.=== Foi útil pois atuei, e muito, como consultor na área de planejamento. Notadamente o estratégico, de longo prazo. Assim, prestei serviços a organizações interessantes. Algumas, grandes empresas familiares ou não, cujo foco era a produção de alimentos.=== Por vezes encontrei forte resistência a novos conceitos, novas tecnologias. Foram raros os casos em que rompi, unilateralmente os contratos de consultoria, com base em cláusulas inteligentes, devido a estas resistências.==== O que aprendi é que os afamados ruralistas são inteligentes. Atentos à modernidade, embora vivam longe das cidades aonde, acreditamos por miopia que tudo é moderno, inovador, produtivo.=== Água, por exemplo. O quadro era o de uma grande propriedade (embora partes dela fossem arrendadas) nas franjas do cerrado. O foco, produção de grãos. Soja e arroz de sequeiro. A água era escassa. A solução proposta e aceita foi uma mistura de poços profundos e do preparo , aumento e construção de pequenas barragens de contenção em depressões naturais para armazenar...água. Anos depois o proprietário investiu mais, em mata ciliar no entorno dos reservatórios criados, e dos cursos de a´gua intermitentes, com o objetivo de filtrar a água livrando-se do excesso de resíduo de agrotóxicos usados em excesso pelo proprietário(s) anterio(es).=== Hoje os filhos tocam o negócio. Antenadíssimos. Com mais capacidade de processamento de dados e uso de softwares sofisticados, que raramente se encontra em empresas da cidade.==== Este tipo de ruralista é o que mais se encontra por aí, associado a empreendimentos de sucesso. Absolutamente não estranho que estejam empenhados a comparecer na Rio+20.=== Elza, você pergunta porque artes grandes extensões de terra são ocupadas e queimadas à feição da nossa indígena coivara ou da "african opening". Eu tenho uma resposta para você : sistema cartorial medieval de registro de propriedade rural. É esta falha que permite ao moderno grilheiro transformar 500 hectares em 500 000 ou ainda transformar terras devolutas (municipais, estaduais ou federais) na Fazenda do Seu Chiquinho das Antas.=== Quem "compra" a Fazenda do Seu Chiquinho, sabe onde está se metendo. E tem que ser rápido. Queima, e coloca boi branco em cima. Depois de uns dois ciclos de reprodução, se a coisa ficar cinzenta, vende o boi em pé e some no mundo, a bordo de uma BMW. AjsCampello
Por Elza A., em 15/05/2012 às 22:06
"TOUROS, GALOS,FRUTAS E GRÃOS AMBIENTAIS" Sem dúvida nenhuma que o equilíbrio e o entendimento fazem bem, em qualquer circunstância, principalmente quando não se precisa chegar ao último passo da estrada, como está acontecendo no Brasil. Aliás, ISTO JÁ DEVERIA TER ACONTECIDO HÁ MUITO TEMPO ATRÁS, poupando-nos muito desgaste internacional como nação; enorme má fama, como uma área planetária privilegiada pela Natureza; total falta de respeito por parte daqueles que, já tendo destruído seu ambiente, anteveem nosso triste futuro. Xico Graziano diz, aqui e em seu artigo do Estadão, que "a turma da agropecuária" pretende "mostrar" na Rio+20, que concorda "carregar a agenda ambiental no campo, assumindo o protagonismo da agricultura sustentável." Naturalmente que na Rio +20, evento que irá expor todos ao mundo , todos querem "sair bem na foto"... É lícita a ilação de que se as pressões -exercidas pelos cientistas e pela população mais esclarecida e sem ligação com a bancada ruralista- surtem alguns resultados sobre aqueles que de forma curiosíssima, se ASSENHORARAM DAS TERRAS PÚBLICAS ANTES COBERTAS POR FLORESTAS, devastado-as para que OS PASTOS fossem "instalados", fato que ALIÁS, NUNCA FOI EXPLICADO devida e PUBLICAMENTE: - COMO ESTAS TERRAS AMAZÔNICAS E PANTANEIRAS FORAM "TÃO GENEROSAMENTE" PARAR NAS MÃOS destes ricos e "CARIDOSOS TOUROS AMBIENTAIS" que, AGORA, depois da clara manifestação de repulsa do povo brasileiro, diante da aprovação do grande lixo pelo Congresso, estão dizendo que "carregarão" os pleitos necessários à manutenção (porque "recuperação" nem pensar) da vida natural, tentando compatibilizá-la com seus interesses comerciais de criadores de gado. Será que querem nos convencer que estes "caritativos, dadivosos, indulgentes, magnânimos" "TOUROS AMBIENTAIS" QUE RECEBEREM DE outros GOVERNOS "BONDOSOS" nossas TERRAS PÚBLICAS vão "CARREGAR A AGENDA AMBIENTAL NAS COSTAS" por PURO DESPRENDIMENTO? Risível, cômico, lamentável... Prossegue, o caro Xico Graziano, dizendo que "Hoje em dia, os dilemas da civilização exigem soluções mais sofisticadas e, certamente, mais complexas, capazes de enfrentar um duplo desafio: o da segurança alimentar e o da crise ambiental." Bom, quanto à "segurança alimentar" que, aliás nada tem a ver com o que "parece", ou seja alimentos "seguros", isentos de venenos ou de hormônios, no hoje chamamos de AGRICULTURA ORGÂNICA, já foi pensada, discutida e vem sendo objeto de atritos, desde o final da primeira guerra mundial quando se manifestou a preocupação de um país "dominar o outro" que não consiga produzir alimentos suficientes para sua população... Numa ótica mais moderna, haveria que se conjugar esta "segurança alimentar" com a "segurança nutricional" (conjugando quantidade com qualidade alimentícia) e - depois que foi constatado o uso irresponsável, criminoso e abusivo de agrotóxicos no Brasil- eu até proporia um tripé, que se solidificaria em tres princípios básicos: A Segurança Alimentar , a Segurança Nutricional e a "Responsabilidade Alimentar", que se referiria ao uso racional e limitado de agrotóxicos, dentro das dosagens admitidas pelos organismos de controle mundial, dando-se preferência ao controle das pragas por vias naturais, como já ocorre em tantas culturas praticadas por agricultores responsáveis pelo que colocam à sua mesa. Só que isto não é -e nem será- prioridade para estes "magnânimos e generosos" ruralistas que pretendem "carregar" a agenda ambientalista na Rio +20 ... Então, no frigir dos ovos, conscientes de que a questão alimentar sempre envolveu e continua a envolver interesses diversos e até contrários, poderíamos agir sem hipocrisia, com cidadania e dignidade, procurando EQUILIBRAR A AÇÃO DE TODOS OS ATORES ENVOLVIDOS, ou seja, governo,cientistas, consumidores e produtores, FALANDO MENOS E AGINDO MAIS, nas ocasiões decisivas, EXIGINDO a manifestação madura e necessária de nossos "representantes" no Congresso, que deverão provar que defendem NOSSOS INTERESSES E NÃO OS DE SEUS PATROCINADORES de churrascos de campanha, à custa de nossa saúde,do nosso ambiente e do nosso futuro como Nação planetária.Tudo isso sem bancar o "Ruralista Tacanho" ou o "Ambientalóide Organicizado", mas como cidadão respeitado, estudioso, contribuinte, respaldado por laudos técnicos e científicos que beneficiariam a todos. E, com a palavra, a cidadania sensata.