Economia

Por Teresa Surita, em 09/05/2012 às 07:00  / 13 opiniões.

Atenção às terras raras

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Se o Brasil pretende se projetar mundialmente como potência econômica, é indispensável que não negligencie o uso dos recursos naturais estratégicos que possui, criar fortes linhas de pesquisa e desenvolvimento das tecnologias de extração e processamento, bem como fomentar a constituição de empresas nacionais que permitam perenizar o conhecimento e a estrutura industrial nacionais.

Atenção às terras raras

Teresa Surita*

No estágio em que se encontra a indústria mundial, os óxidos e as ligas de terras-raras são indispensáveis à fabricação de bens estratégicos. A recente disputa instaurada no âmbito da Organização Mundial do Comércio pelos Estados Unidos, Comunidade Européia e Japão contra a China em torno dos terras-raras desnuda uma realidade à qual não se pode fugir: inexistem, hoje, outros produtos minerais capazes de substituir os terras-raras.

As grandes potências despertaram tardiamente para um fato perturbador: a China detém o monopólio dos terras-raras necessários para construir satélites, caças supersônicos e sistemas de comunicação. A indústria de ponta do planeta está nas mãos da China, que produz 90% das ligas metálicas com terras-raras.

Beneficiada pela abundância de terras-raras que caracteriza a geologia de seu território, a China implantou uma cadeia produtiva, lastreada em preço e quantidade, que motivou centros produtores como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália a interromper o processamento dos elementos contidos, acima de tudo, nos minerais dos grupos da bastnaesita, da monazita, das argilas iônicas e do xenotímio.

Produção mundial de óxidos de terras raras de 1950 a 2000 (em milhares de toneladas). Fonte: USGS.

O Brasil chegou a produzir óxido de lantânio a partir da monazita. Na contra-mão da China, o Estado brasileiro não compreendeu que os bens fabricados a partir dos terras-raras seriam indispensáveis, inclusive por dinamizarem a balança comercial. Não se elaborou, então, uma política para o setor.

No dia 13 de abril, o Serviço Geológico do Brasil deu início a uma avaliação do potencial de terras-raras no Brasil. Essa tarefa se estenderá até 2014 e, em um primeiro estágio, implicará o levantamento de terras-raras em três províncias minerais localizadas em Roraima e no Amazonas.

Esse estudo não pode, contudo, encerrar-se em si mesmo. Deve ser encarado como um movimento no sentido de obter informações precisas que possibilitem o planejamento de uma cadeia produtiva de óxidos e ligas de terras-raras no país. É indispensável ter em mente a necessidade de se criar um pólo de desenvolvimento tecnológico dedicado ao assunto, semelhante ao do setor petrolífero, um modelo paradigmático.

A consciência de que dominar o ciclo produtivo dos elementos de terras-raras exigirá determinação política e disciplina programática levou o Conselho de Altos Estudos da Câmara dos Deputados a aprovar minha proposta para realizar um amplo estudo sobre terras-raras e minerais estratégicos, com vistas a sinalizar para o Poder Executivo a necessidade de o Brasil conquistar autonomia no setor.

O que se quer é ter clareza sobre o que é necessário para o país colocar-se em situação privilegiada quanto à disponibilidade de elementos de terras-raras, dominar a tecnologia de separação e processamento e dar condições ao parque industrial de desenvolver a cadeia produtiva dos minerais mais estratégicos.

Afinal, se o Brasil pretende materializar sua plena potencialidade, é indispensável não negligenciar o uso dos recursos naturais estratégicos disponíveis em nosso território, criar fortes linhas de pesquisa e desenvolvimento das tecnologias de extração e processamento, bem como fomentar a constituição de empresas nacionais que permitam perenizar em nosso país o conhecimento e a estrutura industrial.

* Teresa Surita é deputada federal e membro titular do Conselho de Altos Estudos e Avaliação Tecnológica da Câmara dos Deputados.
Artigo publicado originalmente no jornal O Globo, 23/04/2012. Leia mais no blog teresasurita.com

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    13 opiniões publicadas

    O que você tem a dizer?

    Por augusto josé sá campello, em 28/05/2012 às 17:49

    Boa tarde. E o GRAPHENO vem aí !=== Grapheno é um destes materiais sintéticos que vão substituir as Terras Raras.=== Como já disse, não gostaria de ver nosso país exportando pulseirinhas de Lantânio. Mas, fazer o quê? Parece que ao menos uma parte do nosso futuro será este. AjsCampello

    Por cristina aragoni, em 14/05/2012 às 21:42

    "GEÓLOGO BAIANO DESCOBRE RESERVA DE TERRAS RARAS DE US$ 8,4 BI" Ex sócio de Eike Batista faz esta surpreendente descoberta. http://www.agp.org.br/index.php/2012/04/geologo-baiano-descobre-reserva-de-terras-raras-de-us-84-bi/

    Por Teresa Surita, em 24/05/2012 às 14:32

    O Brasil precisa valorizar seus empreendedores e fixar empresas no país. Abraço!

    Por roberto argento filho argento, em 12/05/2012 às 22:28

    Boa noite.

    Por roberto argento filho argento, em 12/05/2012 às 22:31

    @argento: Tentei postar link de material aqui do OP e externos relativos às Terras Raras e, mais particularmente , ao Nióbio, infelizmente não consegui.

    Por augusto josé sá campello, em 12/05/2012 às 12:55

    Boa tarde. Já andamos tratando deste assunto aqui no OP. Infelizmente não rendeu caldo espesso ou em quantidade. Mas, é sempre oportuno voltar ao tema. Vamos lá. Terras raras têm, em nosso país, um histórico triste. Até contrabando. E isto é recente. Sabe, se você analisa uma minério, dá para saber de onde ele veio. Assim, muito espertinho, lá no norte maravilha, ficou meio apreensivo quando mandou analisar e descobriu que o tal minério havia saído daqui. Com o tempo, e como ninguém chiou, puseram a viola no saco e tratarm de processar. Terras raras sempre foram uma espécie de filé minhon das tais commodities. Hoje em dia, o paradigma do que é commoditie está mudando. Peças e partes de alta tecnologia a serem usados na montagem de produtos de ponta de alta vendagem ou não, estão sendo encarados como commodities. Mas, vamos voltar às terras raras. Qualquer mineradora que se preze, a não ser as muito focadas em um ou alguns tipos de minério, sempre tiveram à mão, informações a respeito de áreas mineralizadas contendo terras raras. às vezes, as terras raras aparecem em bolsões isolados, no meio do nada. Às vezes, meio que de mistura com outros minérios mais, digamos, tradicionais. Informações a respeito de terras raras aqui no Brasil, sempre estiveram à disposição, que eu saiba, no antigo (existe ainda?) DNPM. E olha que era muita coisa. Recentemente a Vale do Rio Doce foi convocada a se dedicar ao assunto. Boa notícia. Mas, a vale é mineradora. Sabe é claro, como refinar minério. Até certo ponto. Diria, concentrar o teor de minério de ferro em pelotas para exportação. O tal do valor agregado sobe um pouco. Os processos de refino, oxidação, enfim, tratamento do minério extraído, minerado para se chegar produto "metálico" (algumas não são propriamnte metais) com qualidade compatível com o que se quer lá em cima -USA, Japão, China, Europa, Ásia, estão por aí. Se estão protegidos por patentes, não sei. A pergunta é a seguinte : dá para entrar neste mercado? Dá, claro. Basta olhar o gráfico fornecido pelo blog da Sra. Surita. A China levou o quê? Uns vinte anos para chegar ao seu monopólio. Então, fora as atividades que já existem por aqui - mineração e refino, podem ser incrementadas. Mas, friso , são vinte anos. E a poeira que estamos comendo, por santa ignorância do que havia nas gavetas do DNPM ? E o conjunto de fenômenos que alguns já começam a chamar de a "terceira revolução industrial". Vai influir neste esforço, de que modo? Eu não gostaria de ver o nosso país exportando pulseirinhas de lantânio ou de nióbio para ganhar algum. AjsCampello

    Por Teresa Surita, em 24/05/2012 às 14:31

    @ajcampello Concordo. São importantes suas questões! Os minérios de terras raras estão presentes muitas vezes nos resíduos da extração de outros minérios. O problema não é só localizar e extrair, mas dominar a cadeia de separação e beneficiamento mineral; e de tornar esse processo economicamente viável. Abraço!

    Por roberto argento filho argento, em 11/05/2012 às 11:57

    http://www.youtube.com/watch?v=WQhR0Dvtnn8 http://adaoreinaldo.blogspot.com/2011/03/niobio-um-elemento-quimico-de-muita.html http://www.youtube.com/watch?v=1uSP9OHVOUM&NR=1 http://www.senado.gov.br/publicacoes/diarios/pdf/sf/2005/12/15122005/45193.pdf http://www.senado.gov.br/publicacoes/diarios/pdf/sf/2005/12/15122005/45194.pdf http://www.jb.com.br/economia/noticias/2012/01/20/china-detem-15-da-producao-brasileira-de-niobio-metal-raro-e-estrategico/ Embora se refiram ao elemento Nióbio, a nossa atenção (dos OP) já foi despertada para o tema Terras Raras. A pergunta é: E a das "autoridades" responsáveis pela salvaguarda dos interesses do Brasil? Ou será que estas "autoridades" estão a serviço do Brazil S/A, hem? - aguardaamos sua resposta.

    Por Ana Maria Margarido, em 10/05/2012 às 00:27

    Muito bom saber que a Deputada se interessa pelo assunto. Já fiz algumas pesquisas sobre "terras raras" (não achei muitas coisas) e também sobre o Nióbio. Tudo que achei sobre esses assuntos fiz questão de gravar e arquivar, Até porque, na minha opinião, a demarcação de terras indígenas, o Tratado dos Indígenas que o Brasil assinou sem nenhuma restrição na ONU em 2007, as ONGs internacionais que pululam nos estados brasileiros e nas terras indígenas onde os minerais são abundantes, me incomodam muito. Acredito que existam muitos interesses "pouco transparentes" em toda essa estória.

    Por Teresa Surita, em 24/05/2012 às 14:27

    @anamaria46 O portal do Serviço Geológico dos Estados Unidos é uma boa fonte de informações: http://minerals.usgs.gov/minerals/pubs/commodity/rare_earths/ A questão das terras indígenas não vejo como o cerne do debate pois a propriedade dos subsolo nunca deixou de ser da União e o Congresso pode autorizar seu uso. Acredito que o problema no Brasil é ser consequente com uma visão estratégica para o setor mineral e planejar sua ação em médio e longo prazos.

    Por José Antônio da Conceição, em 09/05/2012 às 13:07

    Explorar as riquesas do nosso sub-solo em favor dos brasileiros? É isso? E a água doce? Somos "auto-suficientes" também neste recurso natural e podemos braganhar isso com o mundo, em especial com os países (ricos) onde o recurso é escasso. Estamos fazendo isso? República das bananas... e infelizmente, os "bananas" somos nós...

    Por José Antônio da Conceição, em 09/05/2012 às 13:08

    @joseantonio400 leia-se "barganhar"... rs...

    Por Teresa Surita, em 24/05/2012 às 14:21

    É verdade! Não temos uma cultura de planejar estrategicamente e isso se reflete no setor mineral. Temos de tudo, e em quantidades enormes, em nosso país e não fizemos o dever de casa de planejar o uso disso em nosso benefício, para firmar nossa posição de uma das maiores democracias do planeta!