Intervenção na cracolândia não pode ser policial
O ex-secretário nacional de Justiça Pedro Abramovay defende que a intervenção na Cracolândia não pode ser policial. Para ele, O Plano de Ação Integrada Centro Legal executado em conjunto pela prefeitura e pelo estado de São Paulo, que começou na terça-feira, com a intenção de esvaziar a cracolândia, não está “lidando, de fato, com política sobre drogas”.
- A intervenção na Cracolândia não pode ser policial porque o objetivo não é segurança pública, não é diminuir a violência. A intervenção na Cracolândia tem que ser uma combinação de saúde pública com intervenção social. E saúde pública e intervenção social não combinam com polícia. Porque a polícia intimida a ação – afirmou ele em conversa com o Poder Online.
Para Abramovay, que chegou a assumir a Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas no início de 2011, mas foi a primeira baixa do governo Dilma Rousseff, uma política sobre drogas só funcionará a partir do momento que se apresentar como resultados a redução de consumo, a melhoria da condição de saúde das pessoas e a diminuição da violência.
Poder Online – Começou na terça-feira uma operação da Polícia Militar na Cracolândia, na região central de São Paulo, em busca de traficantes. Como vê a ação?
Pedro Abramovay – Tem uma grande questão por trás disso, que é a imprensa, incentivada pelos atores da ação, usar o termo ocupação da Cracolândia. Esse termo tenta relacionar o que está acontecendo em São Paulo com o que acontece no Rio de Janeiro. É como se a intervenção fosse a UPP [Unidade de Polícia Pacificadora] de São Paulo. E o que está acontecendo na Cracolândia é oposto do que está acontecendo no Rio de Janeiro. É muito diferente, parte de lógicas diferentes. E as razões que fizeram as UPPs darem certo no Rio de Janeiro não estão presentes no caso da Cracolândia.
Poder Online – Quais são essas razões?
Pedro Abramovay – No Rio de Janeiro, era um problema de segurança pública, de violência e de falta de liberdade, de domínio militar de regiões da cidade. Tem relação com as drogas? Tem porque esse domínio era feito pelo tráfico de drogas. Mas o objetivo da intervenção era diminuir a violência e devolver aquele espaço territorial para as comunidades. O grande motivo de êxito da intervenção no Rio é justamente quando a Secretaria de Segurança diz que não vai erradicar o tráfico de drogas. Porque a polícia não consegue erradicar o tráfico de drogas, nunca conseguiu em nenhum lugar do mundo e não vai conseguir no Rio, nem na Cracolândia. Quando a polícia admite que não está ali para erradicar o tráfico de drogas, mas sim para diminuir a violência, ela funciona muito. E a polícia entrou e teve resultados bastante satisfatórios no Rio de Janeiro.
Poder Online – Na Cracolândia, os policiais foram orientados a não tolerar mais consumo público de droga.
Pedro Abramovay – Na Cracolândia, o problema central não é um problema de segurança pública. O problema central da Cracolândia é um problema de saúde pública agravado por um problema social. Quer dizer, o crack gera sem dúvida um problema de saúde pública, mas ele é muito mais perverso quando se encontra com os excluídos entre os excluídos, que é o que acontece na Cracolândia. A intervenção na Cracolândia não pode ser policial porque o objetivo não é segurança pública, não é diminuir a violência. A intervenção na Cracolândia tem que ser uma combinação de saúde pública com intervenção social. E saúde pública e intervenção social não combinam com polícia. Porque a polícia intimida a ação.
Poder Online – O primeiro objetivo da ação é, segundo as medidas definidas pela prefeitura e pelo estado de São Paulo, prender os traficantes da região.
Pedro Abramovay – A ideia de que existe ali um traficante, que é uma figura completamente divorciada do usuário, não é verdade. O usuário de drogas, a pessoa que está ali na Cracolândia e tem que ser alvo de uma política de saúde, de uma política social, já vendeu droga em algum momento. Boa parte deles já vendeu uma pedra para comprar outra pedra. Se for separar e dizer que a polícia está ali para evitar o tráfico e vamos ter também uma ação social, não é possível abordar as pessoas com a polícia por perto porque elas tem muito medo da polícia. O usuário tem medo e o agente público também. Ele sabe que não vai funcionar.
Poder Online – Um dos argumentos usado pelos responsáveis pela ação é que a falta de droga fará com que as pessoas busquem o tratamento, que é a estratégia de “dor e sofrimento”.
Pedro Abramovay – Isso é achar que a polícia vai conseguir fazer com que a droga não chegue lá. Isso nunca aconteceu. Nenhuma política repressiva evitou que a droga chegasse a determinadas pessoas. Nos EUA, onde se gasta tanto dinheiro com a guerra contra as drogas, não tem esse êxito. O preço só cai e o consumo não. No máximo, se der tudo certo na Cracolândia, o que vai acontecer é que as pessoas vão ser deslocadas para outros lugares. Mas elas vão ter acesso a drogas. Não é que elas estão presas com uma espécie de imã àquele lugar, que é só cercar por ali e elas não terão mais acesso às drogas. O jeito de fazer as pessoas de saírem dessa prisão, que é a droga, é com políticas de tratamento, que respeite a liberdade dessas pessoas, que trate essas pessoas como indivíduos e que faça essas pessoas escolherem, de algum jeito, nunca mais usarem drogas. Esse é o único jeito que funciona. E com polícia isso não funciona. E não é culpa da polícia. E até muito injusto com a polícia exigir isso dela. A polícia não é feita para fazer política de saúde e política social.
Poder Online – A Polícia Militar tem divulgado a cada dia da ação o número de presos. A prisão resolve o problema da Cracolândia?
Pedro Abramovay – Tem uma questão que temos que prestar atenção: toda política sobre drogas tem na sua métrica indicadores que não têm nada a ver com o seu objetivo. A redução de consumo, a melhoria da saúde das pessoas e redução da violência são os objetivos de uma política sobre drogas. Mas nunca se mede por ai, sempre é por apreensão de drogas e por prisão. E isso não tem nada a ver. O fato de ter prendido tantas pessoas não melhorou a saúde de ninguém. No máximo, tirou aquelas pessoas dali. Mas não se está lidando de fato com política sobre drogas quando se apresenta como números apreensão de drogas e prisão de pessoas. A partir do momento que se apresentar como números a redução de consumo, a melhoria da condição de saúde das pessoas e diminuição da violência, ai se pode dizer que a política está funcionando.
Poder Online – O Brasil é capaz de ter uma política sobre drogas nacional, que oriente as ações nos estados?
Pedro Abramovay – Acredito que necessário ter uma política sobre drogas para o país inteiro, o que não significa que ela não levar em consideração as particularidades de cada local. Por exemplo, o modelo da UPP funciona muito bem no Rio de Janeiro. A realidade de São Paulo não é a realidade de ocupação territorial, militarizada pelo tráfico de drogas. Claro que é preciso construir uma política a partir de cada casa, mas existem princípios gerais que podem ser estimulados pelo governo federal e podem ser aplicados no Brasil inteiro com certeza.
Poder Online – Quais?
Pedro Abramovay – No plano do governo federal sobre as drogas, lançado recentemente, está priorizado o aspecto da saúde pública. É um fato histórico o porta-voz do plano ser o ministro da Saúde [Alexandre Padilha]. Isso é um fato a ser comemorado. Não é nem a polícia, nem os militares, como era há pouco tempo no Brasil. Mais especificamente, temos modelos de tratamento a serem debatidos. No caso específico do crack, modelos que deram certo são aqueles que têm o tratamento ambulatorial na rua, e não na internação. Primeiro porque a internação tira a liberdade da pessoa de maneira arbitrária. Mas mais do isso, a internação tira a pessoa do convívio da sociedade e faz com que ela lide com a ausência da droga em um contexto que não é real. Muitas vezes, ela volta para rua e fica abandonada. Acaba, assim, procurando a droga novamente. Quando se trata na rua, tem a redução de danos imediata e faz com que a pessoa entenda os problemas da droga na realidade dela. Mais eficiente é o tratamento que respeita a liberdade do usuário.
Poder Online – Recentemente, inspirado em um relatório do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, criou uma força tarefa para formular uma nova política em relação ao tráfico de drogas. A ação na Cracolândia em São Paulo está na contramão do que está acontecendo no mundo?
Pedro Abramovay – A política nacional não se identifica completamente com o que está acontecendo em São Paulo. Mas no mundo inteiro estamos lidando com uma mudança de concepção, com quebras de tabus, de paradigmas. O tema nunca foi debatido a sério, seja na política internacional, seja na política nacional. De dois anos para cá, houve uma mudança radical nas possibilidades de debate. Temos que aproveitar isso para que todos os lados dessa questão – que é muito polarizada – possam ser ouvir e discutir a sério. E não mais tratar simplesmente como uma luta ideológica onde de lado tem as pessoas que chamam quem defende políticas mais liberais de maconheiros e de outro lado pessoas que não se dão conta dos efeitos prejudiciais que as drogas têm. É um momento riquíssimo e espero que o Brasil saiba aproveitar esse momento para debater o tema sem preconceito.
21 comentários
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Adivinhem! Há muito mais homicídios nos estados que prendem menos bandidos Vocês sabem que há muito tempo sustento aqui uma tese óbvia, mas nunca reconhecida pela tolice politicamente correta e pelo direito achado na rua: uma das razões de a taxa de homicídios de São Paulo ter caído quase 80% em 15 anos - é hoje o antepenúltimo em mortes por 100 mil, e a capital, a última - é o fato de o estado ser o que mais prende bandidos. Até entrei certa feita numa polêmica com um professor de Direito da USP, segundo quem não fazia sentido São Paulo ser o estado que mais prende se tem uma das menores taxas de homicídio. Ora, havia uma relação de causa e efeito onde ele via uma contradição. Pois bem. Reproduzo o primeiro parágrafo de uma reportagem do Globo: “Estados brasileiros que prenderam mais registraram menos homicídios. Levantamento feito pelo GLOBO com base nos dados do Sistema Nacional de Informação Penitenciária (InfoPen) do Ministério da Justiça e do Mapa da Violência 2012, do Instituto Sangari, revela que as unidades da Federação em que há menos presos por homicídio do que a média nacional viram, na década passada, a taxa de assassinatos aumentar 16 vezes mais em comparação aos estados com população carcerária maior.”RA. UM ESPANTO UM ESPANTO, HEHEHE
Crack: usuários e traficantes são apenas parte do problema por Redação Mídia@Mais em 10 de janeiro de 2012 Opinião - Segurança Pública E-mail Imprimir PDF Ação policial na cracolândia. Além dos traficantes e usuários, falta alguém lembrar dos direitos dos cidadãos comuns Ainda que se consiga tratamento gratuito e infalível para todos os dependentes, e cadeia ou “reabilitação” para todos os traficantes, o problema do crack no Brasil não estará resolvido: a questão já se impregnou no imaginário dos formadores de opinião, incorporando os piores jargões ao discurso habitual dos esquerdistas. O resultado disso é o pobre brasileiro comum tendo que se defender, de um lado, da legião de viciados fora de controle, e, de outro, dos “especialistas” e “intelectuais” que conseguem ver legitimidade social até em rua interditada pelos “nóias”. Quem mais sofre com o problema do crack (uma droga barata, vulgar, que se prolifera na sujeira de nossas ruas abandonadas pela incompetência crônica do poder público) é a população de baixa renda que os especialistas habituais se gabam de defender. É o cidadão comum, pobre, trabalhador, obrigado a circular a pé por vizinhanças decadentes, morador de bairros antigos repletos de construções abandonadas, quem mais se vê acuado e ameaçado pelo poder do tráfico e pelo horror esfarrapado dos crackeiros. Ao contrário destes últimos (indivíduos “à margem”, mas nem por isso desprovidos de “direitos”, uma vez que usam e abusam do espaço público como se fosse o banheiro da própria casa), é aquele que se vê tolhido em suas necessidades mais elementares no convívio social: de uma hora para outra, de uma esquina para outra, não pode ir nem vir, não pode parar para respirar, não pode piscar os olhos, sob pena de ser barbarizado, agredido física ou verbalmente, massacrado em suas convicções morais. O brasileiro pobre, que procura seguir a lei, que não imagina ser a rua o local ideal para depositar seus dejetos pessoais, é ele quem precisaria ser defendido do crime, do constrangimento e da humilhação. Mas vilanizar os traficantes (os legítimos culpados pela situação) e responsabilizar os viciados (os verdadeiros responsáveis pela tragédia, uma vez que a opção pela droga é, em derradeira análise, uma questão pessoal) não encontra eco suficiente na mídia e entre os “formadores de opinião”. A mídia assume a habitual via de mão dupla que procura confundir as autoridades e enlouquecer a população em geral (talvez uma população enlouquecida seja menos exigente quanto à qualidade do que se escreve nos jornais ou ao que se exibe na TV): se um espaço público é dominado pelo tráfico e pelo consumo das drogas (em especial da droga barata que é o crack), o jornalista efetua a denúncia e ensaia ares de indignação cívica. No instante seguinte à primeira medida repressiva tomada (difícil imaginar combate ao crime do tráfico sem repressão), o mesmo jornalista corre para escutar o que diz o formador de opinião (especialista, estudioso, sociólogo, membro de “núcleo de estudo” das drogas ou da violência), que se apressa em tentar demonstrar que “qualquer” atitude repressiva é incompleta por definição e imperfeita na essência – o que nos leva ao beco sem saída ideológico e de volta ao ponto de partida, agora com a sociedade ainda mais extenuada pelo jogo de empurra entre autoridade-mídia-especialistas: a autoridade não trabalha segundo valores maiores e anteriores à discussão (há pouca “moral” envolvida na questão, certo e errado desapareceram, quando deveriam nortear tanto as atitudes quanto o debate), mas apenas segundo as relações de causa-efeito típicas da publicidade de massa norteada por interesses eleitorais; a mídia sopra o vento a favor da bagunça, usa o denuncismo como ferramenta de sua própria agenda política (nada como utilizar o problema das drogas para atacar governantes “menos alinhados”) e balança entre o clamor da audiência (os brasileiros, de modo geral, querem paz na vida, ordem nas esquinas, viciados longe dos filhos e traficantes isolados nas cadeias) e a corrosão interna decorrente do perfil ideológico das redações (tomadas por esquerdistas de todos os matizes, para muitos dos quais as drogas são uma “questão de comportamento”, bandidos são “vitimas do capitalismo” e usuários são “crianças doentes” ou, na melhor das hipóteses, “românticos, transgressores e subversivos”); e os “especialistas” dançam seu próprio samba do acadêmico doido, entre a demência, a má fé, o revolucionarismo disfarçado (“que a sociedade se transforme a qualquer custo”, ainda que para isso tenha que destruir a si mesma através da violência urbana e do consumo livre de drogas pesadas) e a burrice corriqueira mesmo. O resultado é o que se vê hoje: as ruas, tomadas por traficantes e usuários. Os primeiros são criminosos comuns, não raro perigosíssimos, que deveriam ser presos e, em muitos casos, jamais sair de suas celas. Os segundos, como “não respondem por seus próprios atos”, devem ser encaminhados coercitivamente ao tratamento adequado para que, uma vez controlado o surto avassalador do vício, possam novamente ser considerados socialmente (e cobrados) por suas atitudes e, dessa maneira, fortemente estimulados a uma reinserção social aceitável e saudável, longe das recaídas que parecem muitas vezes estimuladas por um ambiente de excessiva leniência – onde adultos são tratados como adolescentes, adolescentes tratados como crianças, e cidadãos responsáveis seguidores da lei como idiotas mesmo.
Por que eu tenho de pagar pelo tratamento de quem decidiu consumir droga sem me consultar? Não é raro que alguns leitores tentem jogar Milton Friedman contra mim. Um dos ícones do liberalismo se dizia favorável à descriminação de todas as drogas. Para ele, trata-se de uma questão individual. Consome quem quer, e o Estado não tem o direito de se meter. Acho que sou um liberal — um liberal-conservador em muitos aspectos — , e não me sinto obrigado a concordar com ele ou com qualquer outro. Costumo dizer que nenhum estado é tão autoritário a ponto de proibir o suicídio. Se a droga fosse apenas matéria de foro íntimo, não seria eu a recomendar que se proibisse, então, essa forma particular de… suicídio — uma questão que considero grave, mas que diz respeito a outro campo da experiência, que não o legal; evito-o agora para não abrir outra vereda no texto. Acho a opinião de Friedman — emitida num tempo pré-crack, diga-se — simplista porque desconsidera que o consumo de determinadas substâncias traz consigo um conjunto de valores, de práticas e de “saberes” (ainda que maléficos) que tem óbvias implicações sociais. Consumir ou não consumir droga, sem dúvida, nasce de uma decisão pessoal. Mas há implicações que são coletivas. De toda sorte, as considerações daquele notável economista liberal servem de instrução ao pensamento e ajudam a orientar as nossas escolhas. Todos acompanhamos a simpatia mais do que indiscreta da imprensa brasileira, com raras exceções, pelas marchas da maconha. Ora, se eu não fosse aquele que diz tudo sem receio de aborrecer, não escreveria o que vou escrever agora. Mas não me importa que alguns tantos fiquem chateados. A simpatia da imprensa pelas tais marchas deriva do fato de que os jornalistas não formam exatamente o grupo profissional mais avesso ao consumo, digamos, recreativo de algumas substâncias proibidas. Os jornalistas, como os artistas, integram as categorias do, como chamarei?, laxismo em matéria de costumes. Mais do que pelo laxismo, têm certa atração pela transgressão. Não é por acaso que as matérias contra o tabaco se multipliquem na imprensa (e está correto; a substância é realmente nociva, diz este fumante), na mesma proporção em que crescem os textos que fazem proselitismo em favor da descriminação de outras drogas. Sigamos. Aos laxistas e liberais, juntam-se aqueles — e é aí que entra, por exemplo, FHC, abraçado a um estupendo equívoco — que consideram que as drogas devam ser descriminadas porque a repressão teria se mostrado ineficiente e contraproducente. Trata-se de um raciocínio torto, que nasce de uma lógica manca: “Se a repressão não é eficiente, por que não testar os efeitos da completa liberação?”, como se o conhecimento que temos do inferno da proibição nos desse a experiência prévia do inferno da liberação — e não nos dá! Ora, as cracolândias no Brasil ou as áreas de Amsterdã em que o consumo de drogas é liberado fornecem pistas de como seria um mundo em que essas substâncias circulassem livremente. Insisto neste aspecto: o crack testa — e reprova — as opiniões dos liberais como Friedman, dos laxistas e dos que se querem, como FHC nesse caso, apenas pragmáticos. Essas correntes todas se juntam contra o Estado quando este decide fazer aquilo que lhe compete fazer: aplicar a lei. Por qualquer ângulo que se queira, mesmo com uma legislação “drogofílica” como a nossa (ainda falarei a respeito em outro post), a existência de cracolândias é inaceitável. E é em momentos assim que a confusão de valores e de referências e que a ausência de um princípio organizador do pensamento se revelam de maneira dramática. Acompanhem o que segue. Vamos ver se há falhas lógicas no que escrevo. Ora, se, vá lá, liberais e laxistas acreditam que a droga é uma questão de foro íntimo; se é verdade que ela diz respeito a escolhas individuais; se é verdade que o estado não tem o direito de se meter nas opções feitas pelos indivíduos, então é preciso sustentar o que deriva de todas essas premissas: esse mesmo estado e essa mesma sociedade não têm obrigação nenhuma de arcar com o custo da escolha, certo? Se os indivíduos que vão fumar um baseado, cheirar uma carreira ou acender um cachimbo não nos devem satisfações, por que nós lhes deveríamos, então, o tratamento quando mergulham na abjeção? É sensato que, na hora de consumir a substância, o sujeito evoque, sei lá, o que considera seus direitos fundamentais, mas se apresente como um caso clínico quando o seu prazer se transforma na sua desgraça? Se o consumo, no fim das contas, é só uma questão de moral privada, que não venham, então, defender que é um imperativo ético do estado, de toda a sociedade, tratar o viciado. ORA, ELE NÃO É, ENTÃO, UM DOENTE, MAS APENAS UM HOMEM LIVRE. E um fundamento da liberdade individual é arcar com o custo das escolhas, em vez de transferi-los para os ombros de terceiros. Mais: ele consuma, então, o que quiser, mas sem sitiar áreas públicas. Se o fizer, polícia! Alguma falha no que escrevo aqui? No parágrafo anterior, não respondi ao que chamei “os pragmáticos”. A falha de seu raciocínio não é menor. Em vez da repressão, dizem eles, é preciso fazer um trabalho de prevenção, descriminando o consumo e dispensando tratamento aos viciados. Seria exato se os viciados constituíssem uma categoria natural ou fossem uma decorrência da árvore da vida, como os infantes e os velhos, que merecem proteção especial. Mas os viciados, eu também acho, fizeram uma escolha primitiva: consumir a substância. Se os serviços públicos de saúde já são hoje um desastre — e são mais ou menos ineficientes no mundo inteiro, é bom destacar, porque são muito caros —, podemos imaginar as conseqüências de uma descriminação ampla das drogas. Atenção! Eu defendo, sim, que haja tratamento nos limites do que comporta o Orçamento — não seria, por exemplo, a minha prioridade e ainda direi, em outro texto, por quê —, mas reivindico que o Estado tem o direito e a obrigação de reprimir o tráfico e, atenção!, também o consumo de drogas. A legislação brasileira, nesse particular, também é uma droga! Mas o que querem, afinal, setores da imprensa? Leio a cobertura de determinados veículos e me pergunto: “Mas o que querem, afinal, determinados setores da imprensa, pautados pelo laxismo e pelo suposto pragmatismo (liberais quase não há mais…)? De fato, gostariam de uma ampla descriminação das drogas, desde que o estado arcasse com os custos das escolhas. No fim das contas, a maioria que não consome drogas, que se dedica com afinco ao trabalho, que se dá duro para educar os filhos e para tentar melhorar de vida, deveria suportar os custos das escolhas dos que decidiram, como se diz, enfiar o pé na jaca. SERIAM SERES PLENOS DE DIREITO QUANDO BUSCAM O SEU PRAZER, MAS APENAS VÍTIMAS QUANDO A DROGA LHES CORRÓI AS ENTRANHAS E O FUTURO. As minhas convicções mais profundas me impedem de negar ajuda a quem, afinal, precisa de ajuda, ainda que tenha cometido muitas faltas. Mas eu reivindico, sim, o direito de a sociedade, que pagará a conta, dizer qual é a sua vontade.RA
"..Intervenção na cracolândia não pode ser policial.." Por acaso, o autor da magnífica frase espera que os agentes de saúde entrem na ante-sala do inferno sem os devidos crucifixos, águas-bentas e dentes de alho? Se for assim, sugiro que ele comece dando o exemplo. Depois, compareceremos todos, consternados, ao enterro de um verdadeiro idiota.
@razumikhin infelizmente os que querem fazer algo diferente, e melhor, não possuem voz de decisão. ou influência.
O PSDB, QUE GERENCIA ESTE BLOG, OU ACORDA OU VAI PERDER EM SAMPA: Governo Federal comanda difamação da operação contra a Cracolândia em São Paulo. A campanha de Haddad já começou, e setores da imprensa atuam como cabos eleitorais Pois é… Eu sei bem como a música toca porque os conheço. Escrevi ontem que a resistência à ação da Polícia na Cracolândia, em São Paulo, era organizada por franjas do petismo presentes em todo canto, muito especialmente na imprensa. Não deu outra! Reportagem do Estadão desta terça, de Bruno Paes Manso, que foi parar na manchete do jornal, deve, entendo, ser objeto de investigação acadêmica. Evidentemente, foi pautada pelo governo federal. Há muto tempo não lia algo dessa natureza. Reproduzo trechos em vermelho e comento em azul. Escandalizem-se. O cronograma traçado pelo governo federal para ser discutido com o Estado e a cidade de São Paulo previa o começo das ações policiais na cracolândia apenas em abril. Em duas linhas, o texto viola a Constituição Federal e a Constituição estadual. O governo federal não poderia ter cronograma nenhum porque isso, forçosamente, deveria ter sido discutido com o governo de São Paulo, o que não aconteceu. Pergunta óbvia: o Estadão teve acesso a um cronograma que o próprio Palácio dos Bandeirantes ignorava? Dilma Rousseff, por acaso, havia decretado intervenção em São Paulo ao arrepio do Congresso? A proposta era começar o ano fortalecendo serviços de retaguarda nas áreas de saúde e proteção social e inaugurar os consultórios de rua em fevereiro. Só depois seriam instaladas bases móveis da Polícia Militar em locais com alta concentração de consumidores de drogas e iniciado o policiamento ostensivo na região, com monitoramento das ruas por câmeras. Em maio, o policiamento dessas áreas ganharia apoio de equipes de ronda ostensiva - no caso de São Paulo, a Rota. Ah, bom! E isso tudo foi debatido exatamente com quem? A Polícia Militar de São Paulo, por acaso, foi federalizada? O governo federal, que protagoniza sucessivos vexames na segurança pública, decidiu agora dar aulas ao Estado que, nos últimos 15 anos, é exemplo de combate ao crime? Só para ilustrar com números: se os mortos por 100 mil habitantes no Brasil fossem iguais aos de São Paulo, 30 mil vidas seriam poupadas por ano no país. Releiam o texto: VEJAM COMO O GOVERNO DILMA É DE UMA ESCANDALOSA EFICIÊNCIA NO PAPEL. A mesma eficiência demonstrada, por exemplo, na prevenção às catástrofes, não é mesmo? O mais encantador é constatar que o Planalto teria na ponta do lápis até a definição do momento em que se empregaria a Rota! Uma das ações dificultadas pela ocupação da PM na cracolândia foi, por exemplo, o mapeamento pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) dos mais de cem pontos de consumo de crack em São Paulo - chamados no estudo de “cenas do crack”. Os 12 pesquisadores da entidade - que estão conversando com usuários para identificar necessidades de tratamento e equipamentos públicos - enfrentam problemas por causa da migração de dependentes pela região central. O plano do governo federal previa ainda estratégias para o caso de dispersão de consumidores, com deslocamento de bases policiais e escritórios de rua. Entenderam? O governo de São Paulo está prejudicando o plano do governo federal, que, como se depreende da leitura do texto, era perfeito e previa até a reação à possível dispersão dos viciados. Agora está tudo explicado: os petistas, como sempre, tinham a solução — a Bahia, por exemplo, mostra como eles são bons em segurança pública! —, mas vieram os tucanos e estragaram tudo. Agora a Fiocruz encontra dificuldades para o seu estudo como nome de tese de cinema da USP: “Cenas do Crack”. Notem que, no texto de Manso, o governo federal estaria no comando da PM, ensinando a Polícia de São Paulo como se faz policiamento ostensivo. É um troço escandaloso! Calma que vem mais! O detalhamento e a sequência das ações eram uma tentativa de facilitar que o pacote de R$ 4 bilhões em ações para combater o crack, divulgadas em dezembro pela presidente Dilma Rousseff, começassem rapidamente a sair do papel. Na estratégia discutida pela União, os policiais ainda têm tarefas bem detalhadas. Ah, mas não há de ser nada! Dilma pode começar a gastar rapidamente os R$ 4 bilhões em outras cidades — Salvador, por exemplo! Ou Belo Horizonte. Ou, ainda, Brasília, que tem uma cracolândia em plena Esplanada dos Ministérios — região de altíssima concentração de drogas! No caso de encontrarem uma pessoa inconsciente ou correndo risco de morte, por exemplo, devem chamar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Caso um adulto seja flagrado com droga, deve ser encaminhado ao Distrito Policial, onde será indicada uma Unidade Básica de Saúde, Centro de Apoio Psicossocial ou Centros de Referência Especializado de Assistência Social. Que governo humano! E os drogados, sob o comando dos petistas, fariam, naturalmente, tudo o que lhes fosse pedido. A secretária de Estado da Justiça, Eloisa de Sousa Arruda, diz, no entanto, que não teve acesso a nenhum documento do governo federal com definição de datas para ações na cracolândia. Mas isso, segundo ela, não significa que Estado e União não pretendam conversar daqui para a frente. Eloisa diz que a parceria com a União já permitiu a São Paulo montar um Centro de Atendimento de Saúde Mental em Perdizes, na zona oeste. “Queremos ampliar as conversas para termos mais recursos.” O texto dá a entender que se trata de uma guerra de versões. Eloísa se Souza Arruda “diz (sic) que não teve acesso a nenhum documento…”??? Errado! “Diz” coisa nenhuma! Ela, de fato, não teve acesso. Era um plano secreto, revelado pelo faro jornalístico da reportagem!!! No texto do Estadão, reitero, temos um estado sob intervenção, com a Polícia Militar sob o comando de alguma autoridade federal… Agora vejam este mimo: A Assessoria de Comunicação do Ministério da Justiça ressaltou que constitucionalmente o governo federal não pode tomar medidas unilaterais sem que Estado e município sejam ouvidos, pois são eles que tomam as decisões locais. Ah, bom! Então a matéria, que é manchete do jornal, caiu no último parágrafo. Se o governo federal “não pode tomar medidas” e se as tais “medidas”, ainda que apenas previstas, não tinham sido nem sequer discutidas com Estado e município, então o tal plano não passa de uma fantasia de urgência, criada apenas para fazer a guerrilha política. O que se tem acima é o vazamento de um suposto plano federal de ocupação da Cracolândia cujo objetivo único é a guerrilha política.
@maisvalia eu sempre digo: quando "nego" floreia demais, é porque está mentindo.
A verdade é uma só: Toda e qualquer ação por parte de São Paulo será criticada! Se fosse governado pelo pt, NINGUÉM CRITICARIA! Pq NINGUÉM se manifestou quando o rio resolveu internar as crianças dependentes? Hipocrisia é que não falta neste PAÍS!
@sosp66 como é que ninguém se manifestou, foi uma falação generalizada. Aliás, o governo do Rio não foi adiante com as internações compulsórias, tampouco maltrata o contingente de dependentes como fazem em SP.
@peplau como eu te disse, o Rio não levou os maus tratos aos dependentes às últimas consequencias como está sendo feito em SP, entendeu a diferença? Mas enquanto a ideia de internação forçada estava em debate, eu li diversas críticas em jornais e revistas.
@peplau Eu não vi a tal ministra dos direitos dus manu se manifestar, não vi nenhum jornalista se manifestar contra o Rio! Me mostre que estou esperando! Só sabem criticar, execrar, maltratar SP!
Isto é conversa mole para boi dormir de um petralha assumido. Por causas destas ideias chegamos ao fundo do poço em matéria de segurança, com a exceção de São Paulo, que descobriu após muito estudo que prender bandidos diminui a criminalidade. Este especialista nunca prendeu nem o dedo na porta da geladeira, acredita que o desarmamento é eficaz. Só se for para os bandidos. Ele que dê o exemplo e leve os excluídos coitadinhos PARA A CASA DELE!
@maisvalia nossa cidadão, assim você ofende as cabeças pensantes deste site. Quer dizer então que São Paulo é um exemplo em matéria de segurança pública, e alcançou tudo isso através do encarceramento de bandidos? É a piada do ano. Será que não tem ninguém mais realista do que este senhor pra debater por aqui?
@peplau falar groselhas é fácil, quero ver trazer fontes e estudos sérios.
@peplau existem muitos autores que discordam que o aumento no encarceramento é efetivo na diminuição da criminalidade. Alguns exemplos: Existem os trabalhos de Sheldon Ekland-Olson, comparando taxas de criminalidade do Texas e da California, e de Zimrig, Hawkins e Ibser, analisando o gigantesco incremento da população prisional na California nos anos 80. O National Council on Crime and Delinquency dos Estados Unidos há muitos anos também desenvolve estudos nessa área, que sempre concluem pela inexistência de uma relação positiva entre controle da criminalidade e aumento da população prisional. Além disso, Roger Tarling analisou detalhadamente a relação entre taxa de encarceramento e taxa de criminalidade na Inglaterra, concluindo que um acréscimo de 25% na primeira tem o pífio resultado de reduzir a segunda em 1% - ou seja, que a relação custobenefício da pena de prisão é extremamente desfavorável. Outra pesquisa sobre o tema foi realizada por Jenni Gainsborough e Marc Mauer, do Sentencing Project (organização não-governamental baseada em Washington), que publicaram, em setembro de 2000, um amplo estudo comparativo sobre taxas de encarceramento e taxas de criminalidade em todos os estados norteamericanos. Os principais resultados desse trabalho são um duro golpe para os que defendem a “cost-effectiveness” da pena de prisão, pois demonstram que, entre 1991 e 1998, os estados com os maiores acréscimos nas taxas de encarceramento tiveram, em média, menores reduções em suas taxas de criminalidade. O grupo de estados que mais investiu em presos e prisões, aumentando sua taxa de encarceramento, em média, em 72%, obteve reduções de 13% nos índices de criminalidade. Outro grupo, que aumentou o número de seus presos em 30%, viu suas taxas de criminalidade declinarem 17%
@peplau É cara, a verdade dói para um iludido. Bandido preso não comete crime.
@peplau e... tal sucesso não se dá devido ao encarceramento, mas devido a melhorias na investigação... Em São Paulo se encarcerou 40% dos presos da banania e São Paulo tem 20% da população da banania, então se aqui tem menos crime.... Acho que não preciso desenhar, né?
@peplau não sou de esquerda coisa nenhuma man, parabéns pela boa taxa de solução de crimes, parece que você não compreendeu o que eu disse ao afirmar que tal sucesso não se dá devido ao encarceramento, mas devido a melhorias na investigação. Sem dúvida você me passou um número positivo, mas sua intenção (pelo que entendi) era provar que tal número se deve ao encarceramento, e isso você não conseguiu provar com tal número.
@peplau ...Segundo que, ainda que ligeiramente melhor do que a média nacional, não dá pra dizer que a segurança pública em SP é um primor, e exemplos não faltam.... Só na cabeça doente de uma pessoa esquerdopata um índice de esclarecimento 15 vezes maior é ligeiramente. Eu contesto com fatos e dados estatisiticos, não com achologia dos esquerdos. Da próxima me chame de fascista.
@peplau tudo bem cidadão, mas tem duas coisas importantes que você está esquecendo. A primeira é que, mais do que encarceramento puro e simples, a diferença dos números se deve principalmente as atividades de investigação, porque mais do que prender é preciso prender a pessoa certa. Segundo que, ainda que ligeiramente melhor do que a média nacional, não dá pra dizer que a segurança pública em SP é um primor, e exemplos não faltam.
@peplau Pegue o anuário sobre segurança publica do próprio Ministério da Justiça e compare o número de homicídios e de outros crimes também proporcionalmente com outros estados. Compare também o número de esclarecimentos de homicídios pela polícia paulista com as demais no Brasil - aqui se esclarece por volta de 60%, no Rio por volta de 4%. Depois compare o número de presos proporcionalmente com a população com outros estados. Depois disso venha aqui tirar onda. Acho que não preciso desenhar né?