Pegas de surpresas pelo protesto da véspera, que envolveu milhares de manifestantes, as autoridades russas colocaram um reforçado aparato miliar nas ruas de Moscou e São Petersburgo nesta terça-feira. Mesmo assim, algumas centenas se arriscaram e protestaram contra supostas fraudes nas eleições parlamentares russas, em atos que terminaram com mais de 450 detenções nas duas cidades.
Na segunda-feira, 300 pessoas já haviam sido detidas na capital e 120 em São Petersburgo por protestarem sem a autorização do governo. Os protestos desta segunda foram dissolvidos pelas forças de segurança e, em Moscou, deram lugar a outro pró-Kremlin, que acabou sendo alvo de duas bombas incendiárias. Não há informação de feridos.
A Anistia Internacional denuncia que há perseguição política nas detenções. Para a ONG, os ativistas Alexei Navalni e Ilia Yashin, condenados a 15 dias de prisão após serem detidos em protestos, são “presos políticos”.
- Claro que nós vamos continuar a protestar. Não há dúvidas de que uma decisão política queria intimidar a mim e a meus colegas. Não vamos parar nossa luta – disse Yashin a repórteres, acrescentando que seu veredito pode causar ainda mais descontentamento entre a população.
Segundo o porta-voz do Ministério do Interior, coronel Vasily Panchenkov, o objetivo do aparato deslocado às ruas de Moscou é garantir a segurança dos cidadãos.
- As ações daqueles que participarem de protestos não sancionados devem ser contidas de forma apropriada – disse o porta-voz, depois de afirmar que os manifestantes não seriam punidos: – Aqueles que participarem de protestos proibidos não devem ter seus direitos limitados de forma alguma, e é isso que estamos observando agora.
A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, repetiu nesta terça as críticas à votação, em que o partido do presidente Dmitri Medvedev e do primeiro-ministro Vladimir Putin manteve a maioria, mas teve reduzida sua margem de manobra na Câmara, perdendo a vantagem de dois terços.
Falando a ministros dos 56 países integrantes da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), Hillary voltou a expressar “sérias preocupações” com as eleições. O porta-voz da Casa Branca usou a mesma expressão ao comentar a eleição russa.
- Quando as autoridades falham em processar aqueles que atacam o povo por exercerem seus direitos ou exporem abusos, elas subvertem a justiça e abalam a confiança do povo nos seus governos – afirmou a secretária de Estado. – Como vimos em muitos lugares, e mais recentemente nas eleições para a Duma (Câmara) na Rússia, eleições que não são justas nem livres têm o mesmo efeito.
Em resposta às críticas e aos protestos, o primeiro-ministro russo prometeu nesta terça-feira reorganizar o governo no próximo ano, para respeitar a vontade da população de ver uma modernização na liderança do país. Contudo, essa mudança só deve acontecer após as eleições presidenciais de março.
- Haverá uma significativa renovação de pessoal no governo – disse a membros de seu tido, o Rússia Unida.
O Rússia Unida obteve 238 dos 450 assentos da Câmara, perdendo 77. Mesmo com o revés inédito para o partido de Putin nos seus 12 anos no poder, observadores da própria OSCE denunciaram fortes indícios de fraudes, além de restrições a partidos da oposição que não puderam concorrer – irregularidades que beneficiariam o partido no poder.
Fonte: O Globo
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