Já comentei em post anterior (4 de outubro passado) neste blog o caso da rodovia que atravessaria a região indígena do Parque de Isiboro na Bolívia.Vale a pena voltar com mais detalhes ao assunto, que é um exemplo das sensibilidades que podem ser suscitadas em países vizinhos pela expansão dos interesses brasileiros.
O projeto consiste na construção de uma rodovia que atravesse a Bolívia e permita o escoamento de produtos brasileiros através do porto chileno de Arica. Tal estrada seria realizada pela construtora brasileira OAS a um custo aproximado de US$ 420 milhões a ser financiado pelo BNDES. Tal rodovia e uma outra destinada a um porto no sul do Peru levariam a produção nacional para uma direção oposta aos congestionados portos do Atlântico e promoveriam forte desenvolvimento econômico dos estados de Rondônia, Acre, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Não há dúvida,portanto, da importância destes eixos viários para o Brasil.
Porém, o projeto encontrou forte resistência na Bolívia.Em 15 de agosto, começou em Trinidad (Departamento de Beni), uma marcha com destino a La Paz, capital do país, de manifestantes contra a obra. O protesto era contra a construção do segundo trecho da estrada, entre Villa Tunari, no Departamento de Cochabamba (centro) e San Ignácio de Moxos, no Departamento de Beni, próximo à fronteira com o Brasil. A estrada passaria pela reserva de TIPNIS (Território Indígena Parque Nacional Isidoro Sécure), ao lado do território brasileiro. Estima-se que 13 mil pessoas, de diferentes comunidades indígenas, morem neste território. Estes protestos foram-se avolumando até que houve uma confrontação violenta entre os manifestantes indígenas de TIPNIS e a polícia boliviana. O movimento já começava também a assumir um tom anti-brasileiro chamando a rodovia de “estrada brasileira”. Pouco depois o governo de Evo Morales viu-se forçado a suspender a obra no início de outubro.
A decisão, contudo, causou sério problema nas relações de Evo Morales com um grupo fundamental ao qual sempre pertenceu: os cocaleros. Como a produção da folha de coca no Vale do Chapare já atingiu seu teto, a reserva de TIPNIS viria abrir nova importante área produtiva capaz de expandir a produção boliviana para fazer face à demanda crescente da droga. Estes cocaleros haviam realizado uma marcha de apoio em 25 de outubro ao projeto. Portanto o episódio abalou fortemente as relações do governo boliviano com os diversos movimentos indígenas com os quais havia celebrado,em 2006, um Pacto de Unidade.
O maior interessado no acesso ao Pacífico são o Brasil e suas empresas. Lula foi à Bolívia pressionar Evo Morales antes da decisão de suspender o projeto e o cancelamento definitivo seria uma decepção real.
À medida que se expandem os interesses brasileiros, vão-se criando também resistências e sensibilidades. O nosso desafio é preservar a estabilidade da Bolívia e nossas boas relações. Mas é certo que, como o maior potência continental na América do Sul, uma região sempre instável, o Brasil terá que preservar seus interesses gerindo com grande cuidado suas relações com seus parceiros regionais mas sem mostrar uma leniência excessiva em nome da generosidade.
Publicado no blog de Luiz Felipe Lampreia no site do Jornal O Globo
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