Até as vésperas da Segunda Guerra o mundo vivia a chamada “idade das ideologias”. Por toda parte, uma parcela considerável das elites dirigentes parecia acreditar que o progresso econômico e social poderia ser alcançado através de um número infinito de modelos e caminhos.
Receitas não haveriam de faltar, até porque, para aviar umas cinco ou seis, bastava reunir em Paris uns três ou quatro intelectuais.
A insensatez da referida suposição, já meio evidente nos anos 50, tornou-se meridianamente clara no último quartel do século, graças à revolução tecnológica e ao aprofundamento da interdependência mundial, entre outros fatores.
O impacto destas transformações se fez sentir não só em certos países soi-disant “nacionalistas” e “progressistas”, mas na própria URSS e em seus satélites. Dos que haviam ido fundo na busca de uma alternativa socialista, só a China demonstrou capacidade de pensamento estratégico, adotando rapidamente um certo número de práticas capitalistas sem abrir mão de seu esquema político de viés totalitário.
Esse é o quadro que as nossas elites dirigentes (falo de elites governamentais, políticas, econômicas, profissionais, sindicais e outras, em sentido amplo) parecem não querer encarar com seriedade.
Queremos para o Brasil algo semelhante ao totalitarismo chinês? Data vênia, eu mesmo respondo: não, não queremos, e eu, particularmente, nem acredito que tal modelo seja viável entre nós.
Ora, se assim é, a nossa escolha é no fundo bem simples: podemos praticar com seriedade a democracia representativa e o capitalismo ou continuar curtindo a nossa irresponsabilidade ad seculum seculorum, agarrados à nossa pedra como um Sísifo raivoso na periferia do mundo.
Claro, chamar às falas um coletivo amorfo como “as elites” soa como um discurso maroto. Para questioná-lo, não se precisa mais que um chavão do tipo “é nos detalhes que o demônio se esconde”.
Não me dispondo a ir tanto ao mar nem tanto à terra, vou concluir mencionando dois dos mais palpitantes assuntos que temos estado a discutir desde o início do ano.
O primeiro prêmio em glamour vai obviamente para a “faxina” encetada pela presidente. Ponto para a Dilma. No Brasil, demitir ministros e funcionários corruptos (ou incapazes de demonstrar sua honestidade) é dar provas de coragem, se bobear até de “statesmanship”.
Mas até agora, infelizmente, Dilma não apresentou nenhum projeto ou proposta com vistas a institucionalizar o combate à corrupção: uma trava qualquer que robusteça e torne duradouro, como sistema, o que ela vem tentando fazer – ao que tudo indica com a melhor das intenções. Estarei sendo muito ranzinza ao cobrar isso dela?
Ora, informado de que o ministro do Turismo usou dinheiro público para pagar sua governanta, o presidente do PMDB, Henrique Alves, declarou que aquele seu correligionário, o indefectível Sr. Novaes, nada teria feito de errado.
Não sei se me fiz bem entender. Se dois próceres do maior partido do país têm tal mentalidade, Dilma haverá de convir que botar corruptos notórios no olho da rua não é suficiente.
O outro assunto que desejava mencionar é a reforma política. Menciono-a, insisto, por ter ela sido apresentada como assunto sério pelo Congresso Nacional desde o início do ano.
Quando as primeiras sugestões começaram a ser divulgadas, o público interessado ficou em dúvida se daquele mato sairia mesmo alguma coisa séria; mas como duvidar se o esforço, além de prender durante muito tempo as atenções da Câmara e do Senado, mobilizara três ex-presidentes com mandatos de Senador (Sarney, Collor e Itamar Franco), e mais Lula, que não se cansava de dar declarações a respeito?
Nesta primeira quinzena de setembro, os jornais informam que Lula vai insistir na reforma, mas acrescentam que a esta altura ela está reduzida ao chamado voto em “lista fechada”. Así sin más: a lista como proposta isolada, sem outros mecanismos para lhe aliviar a solidão e para justificar aquele quê de nobreza que nos costumamos a associar ao termo “reforma” .
Se o que sobrou foi a lista fechada e se é Lula o seu paladino, eu me inclino a crer que o objetivo oculto é apenas reforçar o controle da cúpula petista sobre ovelhas eventualmente desgarradas. Mas se é só isto, obviamente não é de reforma que estamos falando. É de um problema que apenas interessa à economia doméstica ou, sei lá, à vida conjugal do PT.
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5 opiniões publicadas
O que você tem a dizer?Por Antonio Junior, em 15/09/2011 às 22:23
Caro Bolivar Lamounier, Suas opniões foram pertinentes e vieram em um momento perfeito. Acho que vivemos atualmente uma ditadura do pensamento único, na qual críticas ao governo são automaticamente desqualificadas como argumentos de direita reacionária, e onde não se questionam direcionamentos ideológicos assumidos pelo governo, muito mais próximos de posicionamentos partidários do que posicionamentos de Estado. Quando um partido defende um programa socialista, por exemplo, tudo bem, é um posicionamento partidário legítimo. Agora quando o Governo assume esses direcionamentos partidários como sendo da nação temos uma séria distorção... discursos antiamericanistas na política externa, posicionamentos contra os interesses da indústria nacional, decisões de governo destorcidas... é realmente preoucupante. Parabéns pelo comentário!
Por jonathan simonin, em 16/09/2011 às 02:37
@antoniojunior que posicionamento o governo tem que é contra a indústria nacional? por que é errado o Brasil votar sistematicamente contra os EUA na ONU? por acaso não somos uma nação soberana? o Brasil necessita prestar obediência aos EUA? ser seu vassalo?
Por Antonio Junior, em 16/09/2011 às 06:46
@jonathan O governo assumiu que a China é uma economia de mercado, e os produtos chineses invadem nosso mercado. As impostações chinesas competem com as importações de países do Mercosul e EUA. O Brasil exporta matérias primas para a China e importa produtos industrializados diversos, incluindo briquedos, roupas e sapatos, tirando empregos na indústria nacional... Nós exportamos couro e importamos sapatos! São pequenos exemplos do que a distorção ideológica e antiamericana pode causar na condução da política externa, assumindo um antiamericanismo contrário aos interesses nacionais... sem falar nas votações contrárias aos EUA no conselho de segurança, abstenções vergonhosas, contraa Irã, Síria, Líbia, etc... Essa é uma discussão paralela, mereceria um tópico para cada erro político brasileiro basado nessa ideológia socialista...
Por José Antônio da Conceição, em 15/09/2011 às 17:46
Há uma letargia na apresentação de propostas para uma verdadeira reforma política? O voto em lista fechada ficará como única discussão em pauta?